O ÚLTIMO SOBREVIVENTE DA LISTA DE SCHINDLER NA ARGENTINA: ENCONTRO COM FRANCISCO WICHTER

Fotos: Analía Barrera.

Francisco Wichter com Hinda. Dez 2013

Dezembro de 2013. Chegamos, eu e Analía, no horário combinado. Na calçada, apertei o botão correspondente ao apartamento. Atendeu o próprio Francisco, dizendo: “Já desço”. Como muitos edifícios de classe média, já um pouco antigos, de Buenos Aires, o porteiro eletrônico, provavelmente, não funcionava. Esperamos uns segundos, e Francisco Wichter veio nos receber. O nome “Francisco” foi adotado na Argentina. Em iídiche, seu nome é Feiwel.

Aos 86 anos, com o corpo pequeno e magro, cabelos brancos, olhos um pouco esverdeados, Francisco sorria. “Hoje, foi um dia brabo”, disse, referindo-se aos mais de 36 graus dessa tarde de primavera. Antes do anoitecer, o tempo começou a fechar.

Francisco nos abriu a porta dupla do elevador, dessas ainda pantográficas, como muitas em Buenos Aires, para que entrássemos primeiro. Igualmente na saída, no quarto andar, e nos fez passar ao seu apartamento simples, mas com um bom espaço e cheio de quadros na parede, muitos deles homenagens que recebeu nos últimos anos.

Sentamos à mesa da sala de jantar-estar, e ele nos trouxe água. Os copos tinham gravada a cruz de David. Observo o braço direito de Francisco e leio as letras “KL”. Elas foram tatuadas durante sua prisão num campo de concentração e significam, justamente, “Koncentration Lager”.

Eu tinha planejado uma apresentação amistosa, antes de lhe pedir permissão para gravar a conversa e para Analía tirar algumas fotos. Mas Francisco começou a falar, com um leve sotaque, e não parou mais.

Polônia, 1943, em plena Segunda Guerra Mundial. Feiwel-Francisco Wichter tinha 17 anos e nascera em Marski. Seu pai era um artesão que fabricava sapatos de couro, sobretudo, para os camponeses. Estavam comemorando as festas de seis dias de Sucot, uma tradição judaica. No sexto dia, chamado Hoshaná-Rabá, foram informados de que a polícia polonesa tinha assassinado seu pai a mando dos nazistas. A mãe de Francisco foi reconhecer o cadáver. Ao voltar, reunindo os filhos, falou: “Agora, vocês são órfãos de pai”. Não houve nenhuma lágrima, nenhuma palavra.

Junto com sua mãe e cinco irmãos, Feiwel foi obrigado a deixar sua casa e se apresentar em Belzitz, à disposição das forças alemãs. Nesses dias, os nazistas saquearam todas as casas de famílias judias. Roubaram absolutamente tudo. “Não ficou nem um prego”, me disse Francisco. Reuniram-se na casa de um tio com muitas famílias vizinhas. Os adultos proclamaram: dez pessoas se esconderiam no porão da casa com uma missão: sobreviver. “Na Polônia, muitas casas tinham porão para guardar as batatas, beterrabas e outros alimentos para o inverno”, me explica Francisco. A mãe de Francisco e os tios disseram a ele: “Quem sobreviver deverá contar ao mundo o que está acontecendo com os judeus”.

Noite em claro, medo e silêncio. Na madrugada, chegaram os nazistas da SS. Os dez escolhidos, entre eles Francisco, desceram para o porão escutando golpes, gritos, ordens. “Era justo o dia de Simchat Torá, uma festividade judia”, me conta, “a ocasião em que os nazistas apareceram para nos caçar.” Minutos antes, sem tempo para se despedir, olhou para sua mãe, na iminência de ser presa com seus irmãos e outros parentes e vizinhos. “Nunca, até hoje”, me disse Francisco, com seus 86 anos, “me esqueci do olhar de minha mãe.”

Todos os seus parentes foram levados para algum campo de concentração, talvez o de Treblinka, e mortos em câmaras de gás.

Assim, começou a saga de Francisco Wichter por vários campos de concentração nazistas, indo de inferno a inferno. Apesar das condições desumanas de sobrevivência e da brutalidade nazista, Francisco teve a seu favor uma série de acasos que o salvaram de morrer. Em 1944, depois de ter realizado várias tarefas desumanas nos diversos campos – inclusive desenterrar judeus mortos e queimar seus ossos para não deixar pistas das matanças nazistas –, Francisco conseguiu ser recrutado para trabalhar como operário a serviço dos alemães em 1944.

            Na região de Cracóvia, havia uma fábrica de panelas. Diante do avanço do exército soviético, o dono da fábrica decidiu fechá-la para abrir uma fábrica de munições em Brünnlitz, na Tchecoslováquia, sua terra natal. Obviamente, nas condições impostas pelos nazistas: trabalho pesado e sem nenhuma remuneração – assim, os nazistas exploravam os judeus como mão-de-obra extensiva e gratuita. Para essa empreitada, o empresário negociou com os nazistas a permissão para os judeus dormirem na fábrica mesmo, assim não perderiam tempo de trabalho e economizariam no transporte. Os alemães concordaram, e cerca de 200.000 judeus foram deslocados para a nova fábrica.

O nome do proprietário dessa empresa entraria para a história: Oskar Schindler.

Com melhores condições de existência, apesar do árduo trabalho, e a proteção de Oskar Schindler e sua esposa, Emilie, uma grande quantidade de judeus escapou da tortura e da morte provocadas pelos nazistas. O trabalho na fábrica durou do outono de 1944 a maio de 1945, quando terminou a guerra, e os operários judeus foram libertados. No dia 8, Oskar Schindler reuniu os operários no pátio e, apesar da proibição nazista, ordenou que ligassem o rádio e que todos escutassem. A Alemanha tinha se rendido.

A história do destino dos judeus trabalhadores nessa fábrica está contada no filme “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg.

 

Depois

Com o fim da guerra, Francisco Wichter perambulou por uma Europa totalmente destruída e miserável. Tratando de sobreviver, pensou em ir para a Palestina, na época protetorado britânico, que se tornaria o Estado de Israel em 1948. Acabou se instalando provisoriamente na Itália e, recordando o endereço de uma tia que tinha se mudado para Buenos Aires nos anos 1930, pediu à Cruz Vermelha que lhe enviasse uma carta e informasse o seu paradeiro em terras italianas. Para sua surpresa e emoção, recebeu uma carta da tia, que era sua madrinha e tratou de conseguir os papéis necessários para que Francisco fosse para a Argentina. Mas o governo de Perón não estava disposto a aceitar a imigração de judeus. O jeito foi ir para o Paraguai e daí entrar ilegalmente na Argentina. Com um dinheiro enviado por parentes, Francisco conseguiu providenciar tudo, e quando chegou à Argentina, só tinham lhe sobrado 100 dólares.  Mas, antes disso, um acontecimento selou o seu destino: Francisco se apaixonou.

 

Hinda

Hinda era polonesa, havia perdido toda a sua família, assassinada pelos nazistas, e tinha 20 anos, um menos que Francisco. Começaram a sair juntos e se apaixonaram. Contou-me Francisco que, certa época, Hinda estava triste, chorava. Francisco lhe disse: “Se você não tornar a minha impossível lá na Argentina – porque eu não sei o que vai acontecer –, se você quiser vir comigo, vem. Se conseguimos sobreviver a Hitler, como não vamos poder seguir adiante?”. E acrescentou, me olhando: “Era uma sobrevivente como eu”. Casaram-se dia 20 de abril de 1947 na Itália na casa de uns amigos, em uma cerimônia presidida por um rabino.

 

Argentina

Francisco e Hinda embarcaram no porto de Gênova levando na mala duas camisas, alguma roupa interior, um “pobre enxoval” para a esposa, fotos, um livrinho de orações, uma lata de alice e alguns limões. Depois de uma parada no Rio de Janeiro, onde tiveram que esperar durante seis semanas para seguir ao Paraguai, pois lá havia um levantamento militar, conseguiram um avião para Porto Alegre e de lá partiram para Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. A tia de Francisco estava esperando por ele e por Hinda. Pernoitaram em Paso de los Libres e no dia seguinte tomaram um trem para Buenos Aires.

Francisco Wichter nunca mais voltou à Polônia.

 

Um filme que mudou sua vida

Durante 47 anos, Francisco jamais tocou no assunto de sua prisão nos campos de concentração nazistas. Segundo ele, na comunidade judia em Buenos Aires, nos primeiros anos do pós-Guerra, não se falava nisso. Havia um misto de vergonha, impotência e medo nas mulheres e nos homens marcados pela experiência do horror nazista. Ao longo de sua vida, entretanto, nunca pôde se desvencilhar da memória desse horror. Ele me confessou: “As feridas se fecham, mas ficam profundas cicatrizes em nossa mente, em nosso coração. Isso não se esquece. Não se pode esquecer”. E assim ia levando a vida junto a Hinda e à família que eles formaram na Argentina. Até 1994.

Nesse ano, estreou na Argentina o filme “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg, que trata justamente de Oskar Schindler, “patrão” de Francisco em sua fábrica de munições da ex-Tchecoslováquia, onde ele era o operário nº 371. As pessoas ao seu redor começaram a comentar o filme, judeus conhecidos de Francisco o incitavam a ver a realização de Spielberg, mas ele sentia certa resistência em enfrentar o seu próprio passado exposto abertamente numa sala de cinema com um amplo público ao redor. Falou com Hinda sobre o assunto. “Não quero ver esse filme”, foi a resposta dela. Mas, um dia, Francisco decidiu ir ao cinema. Foi um choque. Sentiu-se comovido. Muitas pessoas choravam na sala. De volta para casa, passou alguns dias sem conseguir dormir. E então, começou, silenciosamente, um projeto: escrever. O relato final se intitulou “Décimo primeiro mandamento”, foi publicado em forma de livro e também num site (http://franciscowichter.blogspot.com.br).

A narrativa começou a circular, e Francisco foi gradativamente sendo conhecido em Buenos Aires como o último sobrevivente da lista de Schindler na Argentina. Procurado por familiares, conhecidos, leitores, religiosos, autoridades, Francisco se dispôs a falar e, desde então, não parou mais. “Quando saíram as primeiras reportagens sobre mim, começou a tocar o telefone. Não me davam trégua!”, disse. Para sua surpresa, ele terminou sabendo que a viúva de Oskar Schindler, Emilie, morava em Buenos Aires desde 1949. Com efeito, o casal também migrou para a Argentina, mas Oskar, que tinha uma amante e faliu em seus negócios, voltou para a Europa em 1958, falecendo em 1975. Francisco Wichter, então, voltou a ver Emilie Schindler em pessoa, uma mulher que, segundo ele, teve tanta importância quanto o marido no trabalho de salvar os operários judeus, fato que, para Francisco, ficou injustamente omitido no filme de Spielbeg.

Quando estivemos em sua casa na primeira vez, sua esposa, Hinda, permanecia calada perto de nós. Enquanto Francisco narrava, contava, conversava, Hinda só nos observava e de vez em quando dizia algumas poucas palavras. Na segunda vez em que estivemos na casa deles, tratei de conversar com ela. Como Francisco pertenceu e pertence a entidades de cultura e religião judaicas, perguntei a ela se participavam de festividades judaicas de cunho religioso. “Não”, ela me disse, “porque eu não acredito em mais nada”. “A senhora não tem mais religião?”, indaguei. “Nunca mais”, ela respondeu. “Como posso acreditar em alguma coisa depois do que passei? Como posso acreditar num Deus depois de ver nazistas arrancarem bebês de suas mães e zás!”, falou, com o gesto de um pequeno corpo sendo arrebentado contra uma parede.

Enquanto eu voltava a falar com Francisco, Hinda passou a falar com Analía. “Escute”, dizia, e começava a contar. Francisco se surpreendeu: “Antes, ela não queria falar de sua vida nunca. Eu é que escrevi sobre a vida dela. Agora, ficou tagarela”. Nós ríamos. Hinda insistia, tocando no braço de Analía: “Escute”, repetia, e narrava, narrava. “Contar me faz bem”, confessou. Hinda tem problemas de saúde, de estômago, até hoje. Mas com seus 85 anos [em 2013], faz hidroginástica. “Me sinto bem na água”, falou. Sobre o caráter dela, disse Francisco: “É uma onda suave num mar selvagem”. Hinda se negou a ver “A lista de Schindler”, mas um dia uma amiga conseguiu arrastá-la até o Museu do Holocausto, em Buenos Aires. Enquanto a amiga percorreu o pequeno museu, Hinda a esperou sentada numa cadeira.

Francisco Wichter com Hinda. 2. Dez 2013

A narrativa de Francisco cumpriu uma missão que, décadas atrás, ele tinha recebido de sua mãe e seus tios, quando foi um dos escolhidos para se esconder dos nazistas no porão e tratar de sobreviver: contar ao mundo o que estava acontecendo com os judeus.

Francisco Wichter viveu anos e anos em silêncio, sofrendo com pesadelos e uma memória amargada pelo passado.

Perguntei a ele: “Seu Francisco, e agora, depois de escrever sobre a sua história e ser lido por milhares de leitores? Ainda tem pesadelos?”.

“Nunca mais tive”, respondeu.

Publicado em 07-12-2017 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Contra o populismo lingüístico

Oswald de Andrade

Oswald de Andrade

O populismo lingüístico é uma espécie de ideologia do vale-tudo na língua. No Brasil, há tantas variedades da fala, tantos neologismos e gírias, tantos “erros” ou “invenções” (depende do ponto de vista), que surgiu o populismo para aceitar tudo sem crítica. Baseado numa leitura superficial e tendenciosa da Lingüística, quando esta denuncia o preconceito social e o uso da língua como forma de segregação, esse populismo afirma, então, que tudo o que o povo fala está correto e é válido.
A última expressão desse populismo se encontra no texto de Leandro Karnal “A vida da língua”, no Estado de São Paulo de 15 de fevereiro de 2017 (cultura.estadao.com.br/noticias/geral,a-vida-da-lingua,70001665676). Para ele, tudo é válido, pois, como a língua sempre está mudando – e um exame da história nos mostra isso -, toda mudança é positiva e aceitável. Então, seguindo esse raciocínio, a importação acrítica de palavras estrangeiras, por exemplo, é legal. O vocábulo “deletar”, segundo Karnal, “não é inglês e não é português. Na origem, uma palavra latina que chegou ao francês e ultrapassou o Canal da Mancha”. Ele explica essa origem para afirmar que “criamos muito”, “é a nossa tradicional antropofagia”. Ora, em primeiro lugar, por que marcar a origem da palavra? Se denuncio o fato de importarmos acriticamente estrangeirismos, não importa se ela é uma palavra inglesa, francesa ou chinesa. Talvez Leandro Karnal tenha querido dizer que ela não é uma palavra do inglês, portanto, não devemos refazer a crítica ao inglês como língua de um império, uma língua imperialista. Ela seria uma palavra antiga, “latina”, então é como a maioria das palavras que usamos, que vêm do latim. Ora, esse raciocínio é de uma enganação atroz. A palavra “deletar” não entrou no Brasil pelo Canal da Mancha nem veio do latim. Essa palavra entrou no País impressa nos teclados dos computadores e nos manuais. Portanto, é obviamente, sim, uma expressão que veio acompanhando a tecnologia como expansão da globalização a partir de uma economia imperialista. Essa palavra significa “suprimir” ou “omitir”, e podemos também traduzi-la por “apagar”. Vejam que temos só aqui três vocábulos na língua portuguesa para a tradução. Não há, portanto, dificuldade nenhuma em traduzi-la, não há escassez de opções no português para substituir “delete”. No entanto, esse termo que chegou pelo inglês não foi traduzido. A explicação é que, mais do que uma “preguiça” mental em procurar as expressões em português que pudessem substituir “delete”, se trata de um fascínio acrítico, consumista, de tudo o que vem com a tecnologia do império estadunidense. Assim, usar o verbo aportuguesado “deletar” é mais bacaninha do que traduzi-lo por “apagar” ou “suprimir”. Esta opção é exatamente o que caracteriza a preguiça mental, sim, mas, mais do que isso, a preguiça ideológica: não se perde tempo em analisar as palavras estrangeiras que acompanham a tecnologia vinda do império nem se gasta raciocínio em tentar traduzi-las. Simplesmente, se adota “deletar” (já aportuguesada) como verbo para uso junto a essa tecnologia. Como o fascínio se estende a outras esferas da vida, passou-se a usar “deletar” em contextos que não o da informática: “Deletei essa pessoa da minha vida”, dirá alguém. Isso não tem nada a ver com o conceito de Antropofagia cunhado por Oswald de Andrade no modernismo brasileiro. Só um viés populista como o de Leandro Karnal pode desvirtuar essa idéia cara a Oswald de uma maneira acrítica e superficial, assim como Karnal desvirtuou as razões pelas quais no Brasil se usam palavras estrangeiras a rodo. Porque, para Oswald e para o modernismo brasileiro em sua expressão mais ousada, toda antropofagia é crítica. Trata-se de digerir o estrangeiro assimilando-o crítica e criativamente à nossa cultura. No caso da palavra “delete”, não há nenhuma crítica, muito menos criação.
Karnal acrescenta, ainda, que não adianta tentar “defender” a língua portuguesa de “ataques externos”, porque “o ataque não é externo, é opção dos cidadãos de dentro”. Aqui, o seu populismo chega ao auge: o valor dessas práticas lingüísticas e acríticas se deve a que seu autor é o povo, “os cidadãos”. Trata-se de uma repetição da máxima latina “vox populi, vox dei”, ou seja, “voz do povo, voz de deus”, como se tudo o que viesse do povo fosse naturalmente correto e válido, mesmo sem pensamento crítico. É o máximo do populismo. Haveria que discutir o conceito de “cidadão” e analisar se os 200 milhões de habitantes do Brasil são, de fato, cidadãos. Mas isso seria querer estudar, pesquisar, criticar e discutir. Para Karnal, isso não é preciso: se o povo fala assim, é porque está correto; está correto, porque o povo fala assim. Uma tautologia simplista com a qual todo populismo se arma para combater a complexidade e ajudar a manter o atual estado de coisas. Outra forma de dominação.

Publicado em 15-02-2017 na categoria Gerais | Faça um comentário »

OFICINA LITERÁRIA DE RENATO TAPADO

www.facebook.com/events/1740388322917144/

OFICINA LITERÁRIA DE RENATO TAPADO
Criação e debate – Poesia e prosa

As “fontes” de um escritor são suas vergonhas; quem não as descubra em si mesmo ou as eluda está condenado ao plágio ou à crítica.
Emil Cioran

Por que se escreve? O que é o texto literário? De onde ele vem, o que constitui sua singularidade? Como se cria um poema ou um texto em prosa? O que é a qualidade na literatura?
Estas e outras questões serão debatidas com a prática da criação textual na Oficina Literária de Renato Tapado.
Os participantes serão convidados a escrever, a expor os seus textos e a conversar sobre eles. A prática criativa, tanto de poesia como de prosa, será enriquecida com o debate sobre a literatura.

Duração: sete semanas/total de 14 horas.
Desenvolvimento: um encontro de duas horas por semana.
Quando: segundas-feiras, das 18h30 às 20h30.
Início: 15 de agosto.
Término: 26 de setembro.
Preço: R$ 350.
Inscrições: mande sua mensagem para:
www.facebook.com/rtapado.poesia/

Quem é Renato Tapado:
Renato Tapado é escritor, tradutor, revisor e professor. Formado em Letras Português/Espanhol e mestre em Teoria Literária pela UFSC, publicou seu primeiro livro em 1987: Poemas para quem caminha, Prêmio Luís Delfino de Poesia (Editora da UFSC/FCC). Também é autor de Massala (com Jayro Schmidt), Viagens (Editora da UFSC), O lugar do escritor: ensaio sobre Emil Cioran (Oficinas de Arte do CIC) e Mulher azul (diário feminino), que foi adaptado para o cinema por Maria Emília de Azevedo na França. Para a mesma diretora, Renato Tapado escreveu os textos do filme “Roda dos expostos” (Prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Cinema de Gramado 2001). Trabalhou em Havana e em Buenos Aires.
Mais informações biográficas em:
pt.wikipedia.org/wiki/Renato_Tapado
Em seu site, www.renatotapado.com, se encontram nove livros inéditos, além de aforismos, cartas, fragmentos de diários e outros textos.

Publicado em 03-08-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Tensionar ou tencionar?

Quem tiver dúvida sobre como escrever este verbo e procurá-lo no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras (www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario), terá uma informação errada. Pois no Vocabulário só consta a palavra “tencionar”. Ora, o verbo tencionar tem a ver com intenção, pretender. Por isso, é escrito com a letra “c”. Já o verbo “tensionar”, escrito com a letra “s”, tem a ver com tensão. A Academia, portanto, expurgou a palavra “tensionar”. Um erro grave. Mas no Dicionário Houaiss estão lá os dois verbos.

Publicado em 16-03-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Tudo no presente?

Outra moda que pegou, mas espero que não tenha vindo para ficar: em diversos textos que reviso, o autor, ao narrar episódios do passado, começa a redação usando os verbos no pretérito, mas logo passa a usá-los no presente. Por exemplo, um parágrafo pode se iniciar assim: “Em 1985, ele foi contratado por uma agroindústria e logo se tornou chefe de seção. Três anos depois, foi promovido a diretor”. E, alguns parágrafos depois, encontramos esta redação: “Em 1991, começa a estudar Administração de Empresas e se forma em 1995. Um ano depois, é chamado para dirigir um importante setor da agroindústria”. E por aí vai. Se a narração se refere ao passado, não há por que usar verbos no presente. É verdade que, na fala, em situação corriqueira, informal, o brasileiro mistura passado e presente, dizendo, por exemplo: “No ano passado, ele chega e pede demissão!”. Mas num texto o melhor seria manter a coerência, inclusive para não confundir o leitor em algum trecho. Portanto, deve-se, do início ao fim de um discurso referido ao passado, usar verbos no pretérito. E numa situação de futuro? A mesma coisa, devem ser evitados os verbos no presente: “No mês que vem, ele viajará” ou – se for um registro informal – “No mês que vem, ele vai viajar”, e não “No mês que vem, ele viaja”.

Publicado em 05-03-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Incoerências do (des)Acordo Ortográfico

Parece haver um acordo entre os especialistas em Português sobre o (des)Acordo Ortográfico: é confuso. É lógico, dado que a confusão é da própria essência de um conjunto de mudanças na nossa língua que não foram discutidas suficientemente e acabaram sendo empurradas goela abaixo dos outros países que têm o português como língua oficial.
Entre outras, uma confusão perpassa o (des)Acordo: o uso do hífen. Apesar de a confusão já estar presente antes, atualmente é maior. Vejamos um exemplo: o prefixo co-. Segundo o (des)Acordo, este prefixo não exige mais o hífen, a não ser quando a palavra principal começar com a letra h ou com a vogal o. Então, a partir de agora, deveríamos escrever “coautor”, copresença”, “coparticipação”, etc. Ora, então a expressão “co-ação” agora teria que ser “coação”. Como vemos, a mudança no uso do hífen faz esta expressão ter outro significado. “Co-ação”, com hífen, significava uma ação que tem origem em mais de um agente. Já “coação”, sem hífen, significa apenas “ação ou efeito de coagir […] constrangimento, violência física ou moral”, conforme o Dicionário Houaiss.
Outra incoerência do (des)Acordo foi a supressão do trema. Este sinal servia para diferenciar a pronúncia de palavras como agüentar, conseqüência, argüir, etc., de palavras como guerra, queijo, guindaste. Nas palavras com o trema, a vogal u era pronunciada. Sem o trema, essa vogal desaparecia. Agora, se instaurou a confusão. Imagino crianças aprendendo Português lendo sem pronunciar a vogal u: “a-guentar”, “conse-quente”… Um desastre. Não é por acaso que uma comissão– da qual faz parte o eminente professor Pasquale Cipro Neto – vem estudando uma “reforma” do (des)Acordo Ortográfico para tentar torná-lo menos incoerente e mais adequado à nossa expressão. Espero que tenha sucesso.

Publicado em 21-02-2016 na categoria Gerais | 2 Comentários »

Você precisa de revisão de textos ou de tradução do espanhol?

É so entrar em contato comigo nesta página: www.facebook.com/port13esp13

Publicado em 12-02-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Alerta! Os artigos estão desaparecendo!

Há uma moda estranha, no Brasil, de suprimir os artigos definidos e indefinidos. Cito aqui três exemplos tirados da imprensa: “Instituto confirma visita de Lula a tríplex e volta a negar propriedade” (O Estadão, 31/1/2016); “Pós-graduação ajuda a mudar rumo da carreira” (Gazeta do Povo, 31/1/2016); “Alta incansável do oceano ameaça varrer do mapa nação do Pacífico” (The New York Times em português, 4/12/2015). Se estivéssemos conversando com amigos, diríamos a frase do primeiro exemplo assim: “O Instituto [Lula] confirma a visita de Lula ao tríplex e volta a negar a propriedade”. Como vemos, faltaram quatro artigos. A segunda frase, nós diríamos assim: “A/Uma pós-graduação ajuda a mudar o rumo da carreira”. Acrescentaríamos dois artigos. E o terceiro exemplo, em nossa conversa, seria assim: “A/Uma alta incansável do oceano ameaça varrer do mapa uma nação do Pacífico”. Por que são feitas tantas supressões dos artigos? Seria para economizar espaço? Ora, hoje em dia, com a internet, “economizar espaço” perdeu o sentido. Facilitar a leitura para um público cada vez menos preparado? Não me parece que a supressão de artigos facilite a leitura, pelo contrário, pode dificultá-la. Mistério! Além do mais, falta coerência na imprensa. Por exemplo, na frase publicada pela Gazeta do Povo, a ação coerente seria eliminar outro artigo: o “a” de “da” carreira. A frase seria assim: “Pós-graduação ajuda a mudar rumo de carreira”. Óbvio, porque se trata de uma carreira qualquer, uma generalidade. Se, ao contrário, colocarmos “da carreira”, como fez o jornal, deveríamos perguntar: “Qual carreira?”. Nessa mania de não colocar artigos, os textos, às vezes, caem em erros graves, como este, manchete da Folha de S. Paulo de 31/1/2016: “Com canja de Gilberto Gil, Bloco da Petra atrai multidão a centro do Rio”. Poderíamos reescrever esta frase deste modo: “Com uma canja de Gilberto Gil, o Bloco da Petra atrai uma multidão ao centro do Rio”. Como vemos, acrescentamos quatro artigos. Mas a ausência do quarto artigo, “o”, é o que mancha esta frase com um erro inaceitável. O verbo é “atrair”, que é bitransitivo, ou seja, não exige preposição para “multidão” (atraio alguém, atraio alguma coisa), mas, sim, exige preposição para “centro” (atraio alguém para o centro). A preposição usada pela Folha está correta, “a”, o problema é que ficaram só na preposição e eliminaram o artigo. Alguém é atraído ao centro ou à praia. Sobretudo aqui, quando se trata de um centro definido, o da cidade do Rio de Janeiro. Do contrário, e coerente com essa onda de eliminação de artigos, o “centro” referido na frase poderia ser outro qualquer, um de umbanda, por exemplo. O pior é que, contaminados pela mídia, muitos estão escrevendo assim, suprimindo os artigos, que são fundamentais para dar clareza e coerência ao texto.

Publicado em 04-02-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Revisão de textos, tradução (espanhol-português e português-espanhol)

Serviços de revisão de textos em português e espanhol.
Revisão de artigos, dissertações de mestrado, teses de doutorado, livros, revistas, jornais, etc.

Tradução do espanhol para o português e do português para o espanhol.

Contato: https://www.facebook.com/port13esp13/

Publicado em 01-02-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

“Eu, enquanto professor…”?

“Eu, enquanto professor…”? Eis aqui um uso que, para mim, pode ser um problema. A palavra “enquanto” é uma conjunção que indica tempo. Por exemplo, na frase “Eu pedalava estrada abaixo, enquanto ele me fotografava”, “enquanto” mostra a simultaneidade das duas ações, “pedalava” e “fotografava”. Vejam que “enquanto”, aqui, está relacionado ao verbo “fotografava”. Por outro lado, alguém pode afirmar: “Enquanto eu for nadador, vou participar de torneios”. Neste caso, não se trata de uma simultaneidade de ações, mas sim de um período de tempo durante o qual o sujeito pratica esse esporte. A palavra “enquanto” delimita esse tempo. Pois bem, o problema é quando se usa a palavra “enquanto” no sentido de “na qualidade de”. Explico. Vejamos esta frase: “Eu, enquanto nadador, recomendo o uso dos óculos de natação”. Aqui, a palavra “enquanto” não indica tempo, mas uma condição, exatamente a de ser o praticante desse esporte. Não quer dizer, portanto, que ele recomenda o uso dos óculos apenas enquanto for nadador, mas sim os recomenda porque é um nadador, tem experiência na prática e conhecimento adquirido por ela. Ou, seja, os recomenda “na qualidade de” nadador. Só que esse uso me “soa” mal, porque pode causar certa confusão, induzindo o receptor a ver aí uma acepção de tempo. Vejamos este exemplo: “Ela, enquanto professora, sempre exigia muita leitura de seus alunos”. Se a frase se refere a uma aposentada, a palavra “enquanto” pode dar a entender que ela exigia muita leitura na época em que ainda não tinha se aposentado, mas não exige mais. O que, na prática, pode não ser verdade. Mesmo aposentada, sobretudo na situação do professor no Brasil, possivelmente ela continua dando aulas em algum lugar para sobreviver. E continua exigindo muita leitura! Pelo menos, esperamos isso. Portanto, podemos entender a frase como “Ela sempre exigia muita leitura de seus alunos em sua atividade de professora”. Pode ser que não exigisse tanto com seus familiares ou amigos… Então, neste caso, a acepção de “enquanto” seria “na qualidade de”. Para evitar ambiguidades, eu sugiro não usar “enquanto” nessa acepção. Melhor seria buscar uma alternativa. Exemplos: “Ela, como professora…”; “Ela, na qualidade de professora…”; “Ela, por ser professora…”.

Publicado em 31-01-2016 na categoria Gerais | 2 Comentários »

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