OFICINA LITERÁRIA DE RENATO TAPADO

www.facebook.com/events/1740388322917144/

OFICINA LITERÁRIA DE RENATO TAPADO
Criação e debate – Poesia e prosa

As “fontes” de um escritor são suas vergonhas; quem não as descubra em si mesmo ou as eluda está condenado ao plágio ou à crítica.
Emil Cioran

Por que se escreve? O que é o texto literário? De onde ele vem, o que constitui sua singularidade? Como se cria um poema ou um texto em prosa? O que é a qualidade na literatura?
Estas e outras questões serão debatidas com a prática da criação textual na Oficina Literária de Renato Tapado.
Os participantes serão convidados a escrever, a expor os seus textos e a conversar sobre eles. A prática criativa, tanto de poesia como de prosa, será enriquecida com o debate sobre a literatura.

Duração: sete semanas/total de 14 horas.
Desenvolvimento: um encontro de duas horas por semana.
Quando: segundas-feiras, das 18h30 às 20h30.
Início: 15 de agosto.
Término: 26 de setembro.
Preço: R$ 350.
Inscrições: mande sua mensagem para:
www.facebook.com/rtapado.poesia/

Quem é Renato Tapado:
Renato Tapado é escritor, tradutor, revisor e professor. Formado em Letras Português/Espanhol e mestre em Teoria Literária pela UFSC, publicou seu primeiro livro em 1987: Poemas para quem caminha, Prêmio Luís Delfino de Poesia (Editora da UFSC/FCC). Também é autor de Massala (com Jayro Schmidt), Viagens (Editora da UFSC), O lugar do escritor: ensaio sobre Emil Cioran (Oficinas de Arte do CIC) e Mulher azul (diário feminino), que foi adaptado para o cinema por Maria Emília de Azevedo na França. Para a mesma diretora, Renato Tapado escreveu os textos do filme “Roda dos expostos” (Prêmio de Melhor Fotografia no Festival de Cinema de Gramado 2001). Trabalhou em Havana e em Buenos Aires.
Mais informações biográficas em:
pt.wikipedia.org/wiki/Renato_Tapado
Em seu site, www.renatotapado.com, se encontram nove livros inéditos, além de aforismos, cartas, fragmentos de diários e outros textos.

Publicado em 03-08-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Tensionar ou tencionar?

Quem tiver dúvida sobre como escrever este verbo e procurá-lo no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras (www.academia.org.br/nossa-lingua/busca-no-vocabulario), terá uma informação errada. Pois no Vocabulário só consta a palavra “tencionar”. Ora, o verbo tencionar tem a ver com intenção, pretender. Por isso, é escrito com a letra “c”. Já o verbo “tensionar”, escrito com a letra “s”, tem a ver com tensão. A Academia, portanto, expurgou a palavra “tensionar”. Um erro grave. Mas no Dicionário Houaiss estão lá os dois verbos.

Publicado em 16-03-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Tudo no presente?

Outra moda que pegou, mas espero que não tenha vindo para ficar: em diversos textos que reviso, o autor, ao narrar episódios do passado, começa a redação usando os verbos no pretérito, mas logo passa a usá-los no presente. Por exemplo, um parágrafo pode se iniciar assim: “Em 1985, ele foi contratado por uma agroindústria e logo se tornou chefe de seção. Três anos depois, foi promovido a diretor”. E, alguns parágrafos depois, encontramos esta redação: “Em 1991, começa a estudar Administração de Empresas e se forma em 1995. Um ano depois, é chamado para dirigir um importante setor da agroindústria”. E por aí vai. Se a narração se refere ao passado, não há por que usar verbos no presente. É verdade que, na fala, em situação corriqueira, informal, o brasileiro mistura passado e presente, dizendo, por exemplo: “No ano passado, ele chega e pede demissão!”. Mas num texto o melhor seria manter a coerência, inclusive para não confundir o leitor em algum trecho. Portanto, deve-se, do início ao fim de um discurso referido ao passado, usar verbos no pretérito. E numa situação de futuro? A mesma coisa, devem ser evitados os verbos no presente: “No mês que vem, ele viajará” ou – se for um registro informal – “No mês que vem, ele vai viajar”, e não “No mês que vem, ele viaja”.

Publicado em 05-03-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Incoerências do (des)Acordo Ortográfico

Parece haver um acordo entre os especialistas em Português sobre o (des)Acordo Ortográfico: é confuso. É lógico, dado que a confusão é da própria essência de um conjunto de mudanças na nossa língua que não foram discutidas suficientemente e acabaram sendo empurradas goela abaixo dos outros países que têm o português como língua oficial.
Entre outras, uma confusão perpassa o (des)Acordo: o uso do hífen. Apesar de a confusão já estar presente antes, atualmente é maior. Vejamos um exemplo: o prefixo co-. Segundo o (des)Acordo, este prefixo não exige mais o hífen, a não ser quando a palavra principal começar com a letra h ou com a vogal o. Então, a partir de agora, deveríamos escrever “coautor”, copresença”, “coparticipação”, etc. Ora, então a expressão “co-ação” agora teria que ser “coação”. Como vemos, a mudança no uso do hífen faz esta expressão ter outro significado. “Co-ação”, com hífen, significava uma ação que tem origem em mais de um agente. Já “coação”, sem hífen, significa apenas “ação ou efeito de coagir […] constrangimento, violência física ou moral”, conforme o Dicionário Houaiss.
Outra incoerência do (des)Acordo foi a supressão do trema. Este sinal servia para diferenciar a pronúncia de palavras como agüentar, conseqüência, argüir, etc., de palavras como guerra, queijo, guindaste. Nas palavras com o trema, a vogal u era pronunciada. Sem o trema, essa vogal desaparecia. Agora, se instaurou a confusão. Imagino crianças aprendendo Português lendo sem pronunciar a vogal u: “a-guentar”, “conse-quente”… Um desastre. Não é por acaso que uma comissão– da qual faz parte o eminente professor Pasquale Cipro Neto – vem estudando uma “reforma” do (des)Acordo Ortográfico para tentar torná-lo menos incoerente e mais adequado à nossa expressão. Espero que tenha sucesso.

Publicado em 21-02-2016 na categoria Gerais | 2 Comentários »

Você precisa de revisão de textos ou de tradução do espanhol?

É so entrar em contato comigo nesta página: www.facebook.com/port13esp13

Publicado em 12-02-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Alerta! Os artigos estão desaparecendo!

Há uma moda estranha, no Brasil, de suprimir os artigos definidos e indefinidos. Cito aqui três exemplos tirados da imprensa: “Instituto confirma visita de Lula a tríplex e volta a negar propriedade” (O Estadão, 31/1/2016); “Pós-graduação ajuda a mudar rumo da carreira” (Gazeta do Povo, 31/1/2016); “Alta incansável do oceano ameaça varrer do mapa nação do Pacífico” (The New York Times em português, 4/12/2015). Se estivéssemos conversando com amigos, diríamos a frase do primeiro exemplo assim: “O Instituto [Lula] confirma a visita de Lula ao tríplex e volta a negar a propriedade”. Como vemos, faltaram quatro artigos. A segunda frase, nós diríamos assim: “A/Uma pós-graduação ajuda a mudar o rumo da carreira”. Acrescentaríamos dois artigos. E o terceiro exemplo, em nossa conversa, seria assim: “A/Uma alta incansável do oceano ameaça varrer do mapa uma nação do Pacífico”. Por que são feitas tantas supressões dos artigos? Seria para economizar espaço? Ora, hoje em dia, com a internet, “economizar espaço” perdeu o sentido. Facilitar a leitura para um público cada vez menos preparado? Não me parece que a supressão de artigos facilite a leitura, pelo contrário, pode dificultá-la. Mistério! Além do mais, falta coerência na imprensa. Por exemplo, na frase publicada pela Gazeta do Povo, a ação coerente seria eliminar outro artigo: o “a” de “da” carreira. A frase seria assim: “Pós-graduação ajuda a mudar rumo de carreira”. Óbvio, porque se trata de uma carreira qualquer, uma generalidade. Se, ao contrário, colocarmos “da carreira”, como fez o jornal, deveríamos perguntar: “Qual carreira?”. Nessa mania de não colocar artigos, os textos, às vezes, caem em erros graves, como este, manchete da Folha de S. Paulo de 31/1/2016: “Com canja de Gilberto Gil, Bloco da Petra atrai multidão a centro do Rio”. Poderíamos reescrever esta frase deste modo: “Com uma canja de Gilberto Gil, o Bloco da Petra atrai uma multidão ao centro do Rio”. Como vemos, acrescentamos quatro artigos. Mas a ausência do quarto artigo, “o”, é o que mancha esta frase com um erro inaceitável. O verbo é “atrair”, que é bitransitivo, ou seja, não exige preposição para “multidão” (atraio alguém, atraio alguma coisa), mas, sim, exige preposição para “centro” (atraio alguém para o centro). A preposição usada pela Folha está correta, “a”, o problema é que ficaram só na preposição e eliminaram o artigo. Alguém é atraído ao centro ou à praia. Sobretudo aqui, quando se trata de um centro definido, o da cidade do Rio de Janeiro. Do contrário, e coerente com essa onda de eliminação de artigos, o “centro” referido na frase poderia ser outro qualquer, um de umbanda, por exemplo. O pior é que, contaminados pela mídia, muitos estão escrevendo assim, suprimindo os artigos, que são fundamentais para dar clareza e coerência ao texto.

Publicado em 04-02-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Revisão de textos, tradução (espanhol-português e português-espanhol)

Serviços de revisão de textos em português e espanhol.
Revisão de artigos, dissertações de mestrado, teses de doutorado, livros, revistas, jornais, etc.

Tradução do espanhol para o português e do português para o espanhol.

Contato: https://www.facebook.com/port13esp13/

Publicado em 01-02-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »

“Eu, enquanto professor…”?

“Eu, enquanto professor…”? Eis aqui um uso que, para mim, pode ser um problema. A palavra “enquanto” é uma conjunção que indica tempo. Por exemplo, na frase “Eu pedalava estrada abaixo, enquanto ele me fotografava”, “enquanto” mostra a simultaneidade das duas ações, “pedalava” e “fotografava”. Vejam que “enquanto”, aqui, está relacionado ao verbo “fotografava”. Por outro lado, alguém pode afirmar: “Enquanto eu for nadador, vou participar de torneios”. Neste caso, não se trata de uma simultaneidade de ações, mas sim de um período de tempo durante o qual o sujeito pratica esse esporte. A palavra “enquanto” delimita esse tempo. Pois bem, o problema é quando se usa a palavra “enquanto” no sentido de “na qualidade de”. Explico. Vejamos esta frase: “Eu, enquanto nadador, recomendo o uso dos óculos de natação”. Aqui, a palavra “enquanto” não indica tempo, mas uma condição, exatamente a de ser o praticante desse esporte. Não quer dizer, portanto, que ele recomenda o uso dos óculos apenas enquanto for nadador, mas sim os recomenda porque é um nadador, tem experiência na prática e conhecimento adquirido por ela. Ou, seja, os recomenda “na qualidade de” nadador. Só que esse uso me “soa” mal, porque pode causar certa confusão, induzindo o receptor a ver aí uma acepção de tempo. Vejamos este exemplo: “Ela, enquanto professora, sempre exigia muita leitura de seus alunos”. Se a frase se refere a uma aposentada, a palavra “enquanto” pode dar a entender que ela exigia muita leitura na época em que ainda não tinha se aposentado, mas não exige mais. O que, na prática, pode não ser verdade. Mesmo aposentada, sobretudo na situação do professor no Brasil, possivelmente ela continua dando aulas em algum lugar para sobreviver. E continua exigindo muita leitura! Pelo menos, esperamos isso. Portanto, podemos entender a frase como “Ela sempre exigia muita leitura de seus alunos em sua atividade de professora”. Pode ser que não exigisse tanto com seus familiares ou amigos… Então, neste caso, a acepção de “enquanto” seria “na qualidade de”. Para evitar ambiguidades, eu sugiro não usar “enquanto” nessa acepção. Melhor seria buscar uma alternativa. Exemplos: “Ela, como professora…”; “Ela, na qualidade de professora…”; “Ela, por ser professora…”.

Publicado em 31-01-2016 na categoria Gerais | 2 Comentários »

DILMA ATACA TERRAS INDÍGENAS

A mentira mais descarada é afirmar, como o fazem muitos simpatizantes idiotizados pelo PT, que a PEC 215, que pretende passar a responsabilidade pela demarcação das terras indígenas para o nosso glorioso Congresso nacional, é de exclusiva autoria dos ruralistas.
Em primeiro lugar, o ataque aos indígenas começou com a famosa “Minuta” do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, cuja proposta circulou por diversas entidades e foi denunciada pelas ONGs e instituições que trabalham na defesa dos índios. Esta Minuta, que pretendia estabelecer “instruções para a execução do procedimento administrativo de demarcação de terras indígenas de que trata o Decreto n. 1.775″, foi prontamente denunciada por todas as lideranças indígenas e criticada em todo o País.
No dia 10 de julho, enquanto Dilma recebia líderes indígenas que reivindicavam o respeito do governo às suas terras, o líder do governo na Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), colocava em votação no plenário um requerimento de urgência para a apreciação do Projeto de Lei Complementar (PLP) 227/2012, que, se aprovado, colocaria em risco os direitos dos índios sobre suas terras.
Em segundo lugar, existe a famigerada Portaria 303, da Advocacia-Geral da União (AGU), que, segundo o CIMI, é “uma decisão política do Poder Executivo Federal que desrespeita e atenta contra decisão do STF, determinando práticas na atuação dos Advogados da União, inclusive em processos judiciais que envolvem disputas fundiárias relativas ao direito dos povos indígenas às suas terras tradicionais”.
Tudo isso sem consultar os grupos indígenas, numa imposição do governo do PT. Conforme declarou o cacique Marcos Xucuru, “A falta de consulta e diálogo com os povos são marcas do governo Dilma”.
O que provocou uma mobilização em Brasília no dia 4 de dezembro, reunindo cerca de 1.700 indígenas de todo o País para protestar contra a portaria do ministro da Justiça e pelo respeito às terras indígenas.
O governo não fez nada, apenas deu declarações demagógicas.
Em terceiro lugar: paralelamente a isso, o ataque às culturas tradicionais se dá também via Ministério da Agricultura, com o o Projeto de Lei (PL) 7.735/2014, que quer regular o acesso aos recursos energéticos e da biodiversidade dos pequenos agricultores, indígenas e comunidades tradicionais. O mesmo Ministério da Agricultura trabalha em parceria com a famigerada Monsanto, multinacional dos agrotóxicos e transgênicos, que injeta dinheiro na Embrapa. O avanço sobre as terras e as culturas indígenas é implacável.
Esse conjunto de ataques, obviamente, beneficia os ruralistas, históricos defensores do grande capital no campo, responsável pela expulsão de trabalhadores rurais, por todo o tipo de violência, incluindo assassinatos, etc.
Em quarto lugar: apenas saiu eleita para o seu segundo mandato, Dilma não teve a menor cara de pau de convidar a pior liderança ruralista, a mais dura representante do capitalismo no campo, Kátia Abreu, para ser a ministra da Agricultura. Obviamente, Dilma é perfeitamente coerente com o seu projeto de atacar os índios, as culturas tradicionais e a agricultura familiar para dar lucros ao grande capital destruidor de tudo. Foram tantas as críticas e a indignação, que até pode ser que Kátia Abreu não seja a ministra, o que dá no mesmo: será alguém ligado à bancada ruralista.
Em quinto lugar: ainda não acabou: junto à PEC 215, está em tramitação o projeto do senador Romero Jucá, que daria liberdade para deixar de fora da demarcação de terras indígenas fazendas, hidrelétricas, minas, núcleos urbanos que sejam “de interesse nacional”. Um verdadeiro atentado aos direitos indígenas e à Constituição – aliás, como a PEC 215.
Mas quem é esse senador Romero Jucá? Em 1986, presidiu a Funai! – que sofreu intervenção do Tribunal de Contas da União por “irregularidades”. Em 1987, fez um convênio entre a Funai e o DNPM para extração de minérios das terras indígenas!! Foi ex-governador de Roraima. Um autêntico “ruralista” contra os índios. E no governo Lula? Foi ministro da Previdência Social envolvido em escândalos. Depois, como “prêmio” pelas denúncias de corrupção, foi o líder do governo. E no governo Dilma? Também foi líder.
Estamos bem.

Publicado em 12-12-2014 na categoria Gerais | Faça um comentário »

ALGUMAS NOITES COM JOAQUIM BARBOSA (Mas não seguidas, e não toda a noite!)

joaquim-barbosa

Tocou o meu celular, e eu atendi: “Alô?”. E escutei: “Oi, Renato. Aqui é o Joaquim Barbosa!”.

Isso me lembrou a história de Ronald Shakespeare, um designer que ia trabalhar na produção de um programa de televisão com o grande ator argentino Alfredo Alcón – que já tinha interpretado várias peças de William Shakespeare. Ronald telefonou para Alcón e disse: “Aqui é o Shakespeare”. Ao que o autor retrucou: “Vai plantar batatas!”.

Mas, no meu caso, era Joaquim Barbosa. “Vamos tomar um chope?”, ele perguntou. Lógico que fui. Primeiro, passei no edifício onde ele estava morando durante uma temporada em Buenos Aires, e dali fomos ao bar notable El Preferido de Palermo.

Joaquim Barbosa usava um chapéu para se proteger do frio. Mas em dias quentes e ensolarados, também usa chapéu, só que panamá. Calça jeans e jaqueta, sapato-tênis.

De cara, no táxi, saí perguntando sobre o que ele comia quando ainda morava em Minas Gerais, até os 16 anos, antes de se mudar para Brasília. “Não a chamada ‘cozinha típica mineira’, comíamos de tudo.” Também se lembra do café plantado, colhido, secado e tostado em casa. “E tinha o porco que era cortado, cozido e guardado numa lata, quando não havia geladeira.” “Igual ao interior de Santa Catarina!”, falei. “Joaquim (para o amigo que temos em comum e que o conhece há 18 anos, ele é o Joca. Mas nunca o chamei de Joca, só de Joaquim), e o pão de queijo?”, provoquei, para saber se o mito que une eternamente o mineiro a esse quitute era verdadeiro. “Adoro pão de queijo! O melhor é feito pela minha mãe. Eu até levava pra comer com os servidores do Supremo…” (Leia-se: Supremo Tribunal Federal).

Joaquim Barbosa come de tudo, mas prefere as massas, os peixes e os frutos do mar. “Não como muita carne”, disse, mas, claro, depois acabou provando as excelentes parrillas portenhas. Também gosta de vinho tinto, que foi o que pedimos: um malbec, com uma picada básica. Depois, jantamos. Ele, almôndegas com arroz; eu, rins ao Jerez com arroz. Comidinhas de boteco.

Joaquim é um aficionado por música, popular ou erudita. Conhecedor, gosta de MPB, bossa nova, sobretudo música instrumental, e jazz, ópera… Admira tanto a nossa música, que, no dia de sua posse como presidente do STF, convidou nada mais nada menos do que o grande mestre do bandolim Hamilton de Holanda para tocar.

Falamos sobre músicas e músicos, por exemplo, o maestro argentino Daniel Barenboim, que esteve recentemente em Buenos Aires (“Eu o vi em Berlim”, diz Joaquim), a pianista argentina Marta Argerich, amiga de Nélson Freire (a quem Joaquim também assistiu), a música de Minas Gerais, o Clube da Esquina, que tanto encantou Pat Metheny… Poderíamos ter ido ver Barenboim num grande evento ao ar livre, mas era meio complicado para chegar, e com certeza haveria um mundo de gente. Joaquim acabou desistindo: “É muita muvuca”. Também falamos de Rosa Passos, a fina cantora de MPB, cotada no exterior como cantora de jazz, que mora em Brasília. “Sim, ela é esposa do ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos”, me conta Joaquim. Sua formação musical foi com música sertaneja, regional, depois rock e blues, depois abarcou tudo. Só o tango não o seduz, para a minha decepção, pois pensava levá-lo a alguma milonga: “Não faz muito a minha cabeça”.

Joaquim veio a Buenos Aires para umas “férias”, já aposentado do STF, uma temporada sem compromissos para relaxar de tantas tensões. Falamos dos problemas do Brasil, do racismo, da corrupção, das minorias abandonadas, como os índios, dos preconceitos de toda a espécie. Citei para ele uma frase que Bioy Casares atribui a Borges: “O Brasil é um país de macacos”.

Comentei que o que “salva” o Brasil são os artistas, os criadores, a cultura. “Mas também as pessoas, os brasileiros”, me diz, “o povo brasileiro é aberto, hospitaleiro, solidário, chama muito a atenção dos estrangeiros”. Joaquim Barbosa pôde fazer esse comentário com propriedade porque já morou em Nova York, em Paris, em Helsinki, em Los Angeles, na Inglaterra, na Áustria… E, óbvio, fala vários idiomas. “Quero aperfeiçoar o meu espanhol”, ele diz, aproveitando a estada na capital argentina.

Apesar de ter vivido a maior parte do tempo em cidades mais quentes – Paracatu, onde nasceu, Rio de Janeiro e Brasília –, ele gosta do frio, por isso veio a Buenos Aires no inverno, mas também porque curte cidades grandes. “Eu gostaria de passar uma temporada em cidades grandes onde ainda não vivi, Hong Kong, Singapura…” Ao contrário de mim, que volto para o meio do mato, Joaquim se sente bem no meio da metrópole, onde tem acesso à música, ao cinema, ao teatro, à ópera, às lojas de discos, às livrarias. “Quando eu estava para vir pra Buenos Aires”, disse”, li Facundo, do Sarmiento, e um livro de história da Argentina.” Joaquim não para de ler. Uma tarde, quando eu estava num café na Avenida Corrientes, o vejo passar caminhando com uma sacola: estava de compras pelas livrarias. Indiquei várias importantes na cidade, como a bela El Ateneo Grand Splendid, montada num antigo teatro, onde a plateia e os camarotes foram ocupados por estantes de livros, e no palco fica um café. “Já estive lá duas vezes”, me diria uns dias mais tarde. Joaquim tem tantos livros (já não tem onde guardá-los) que pensa em criar, um dia, talvez, uma pequena biblioteca pública em sua cidade natal.

Joaquim fala baixo, é meio tímido, tem o sorriso fácil. Como no bar El Preferido de Palermo os bancos são altíssimos, ele aproveitava para ficar às vezes sentado, outras vezes de pé. Na saída, me falou: “Legal esse bar, esses banquinhos são bons pra mim”. Referia-se ao incômodo quase permanente que Joaquim sofre devido à sacroileíte, uma inflamação nas articulações que causa muitas dores. Por isso, ele alterna as posições em pé ou sentado. O melhor mesmo é ficar deitado. Para enfrentar o problema, Joaquim toma alguns remédios. “Hoje, como eu ia beber, não tomei um dos comprimidos. Agora, dói.”

“Vai um café, Joaquim?”. “Não, não sou muito de café. Depois, não durmo!”.

 

Ossos da fama

Em Buenos Aires, Joaquim caminhou muito, andou de ônibus e até de metrô, sobre o qual desabafou: “Muita gente!”. Acabou sendo reconhecido várias vezes por brasileiros turistas ou residentes. Aí, teve que parar, conversar, dar autógrafos, sofrer alguma foto de celular… Mas teve suas compensações: todas as pessoas eram afáveis, respeitosas, e algumas o acompanharam em passeios pela cidade.

Joaquim está separado há dois anos e veio a Buenos Aires sozinho. “As argentinas são muito bonitas”, confessa. Aqui, ninguém é hostil a ele, como muitos o foram no Brasil, basicamente, políticos ou seus “representantes”… Num restaurante conosco, ele foi abordado por mais um brasileiro, que estava com sua esposa argentina: “Desculpe… O senhor não é o Joaquim Barbosa?”. “Sim”, ele respondeu calmamente e se levantou. O rapaz ficou perplexo e não parou de tecer elogios a Joaquim, dizendo à esposa: “Este cara é a pessoa mais importante do Brasil!”. “Que isso…”, dizia Joaquim, do alto de sua humildade.

Perguntei: “Joaquim, o que você pretende fazer a partir de agora? Voltar a dar aulas da universidade?” (ele era professor da UERJ). “Não”, respondeu, “prefiro trabalhar com assessoria, dar pareceres jurídicos, palestras…”. Mas, por enquanto, entre um compromisso e outro no Brasil, o melhor mesmo é curtir Buenos Aires. “Vou fazer musculação”, contou. “Deve ser bom para o seu problema das articulações”, sugeri. “Faz muito tempo que você não faz exercícios?”. “Há cinco anos!”, Joaquim respondeu. Em Buenos Aires, passou a caminhar bastante, conhecendo melhor a cidade. Um dia, mandei uma mensagem a ele pelo celular, e ele respondeu: “Estou malhando”. Começou a fazer academia três vezes por semana.

 

Jazz e companhia

Desta vez, fomos ao bar de jazz Thelonious, com música ao vivo. Tocava um saxofonista, cujo show – coisa raríssima em Buenos Aires, onde mesmo quem toca na rua em geral é excelente – não era grande coisa. Ficamos nos altos banquinhos do balcão bebendo um vinho e beliscando petiscos. “Vi o grande B. B. King ao vivo em Paris!”, exclama, contente. “E o Little Richard!”. Diz esse tipo de coisas com a maior naturalidade, sem um pingo de esnobismo. Joaquim não canta vantagens, ele apenas compartilha.

Sobre as possíveis origens da bossa nova, conversamos sobre Henri Salvador, que a imprensa francesa tentou passar como alguém que influenciou Tom Jobim e companhia. Mas o próprio Henri declarou: “Eles é que me influenciaram”. No entanto, Joaquim me contou que, na TV francesa, ele assistiu a uma reportagem mostrando composições de Salvador dos anos 1940 e 1950, e eram muito parecidas com a bossa nova!

Joaquim é ligado a tudo o que diz respeito a música. Quando a Analía, minha mulher, comentou sobre o filme “Eu, tu, eles”, que ela viu e gostou, Joaquim logo disse: “Com música de Gilberto Gil!”. Gosta do músico baiano Elomar, e fez chegar ao próprio sua opinião. Não deu outra: um dia recebeu de Elomar uma pilha de discos e livros.

Joaquim nunca fica até muito tarde na rua. Sempre, a uma certa hora, ele propõe: “Vamos nessa?”. Não perguntei se é por causa das dores que ele tem ou simplesmente porque está acostumado a dormir cedo, mas imagino que por causa das dores: Joaquim descia as escadas do bar bem devagar, levando os dois pés a cada degrau.

 

 

Políticas

Já que Joaquim gosta de massas – e eu adoro massas –, levei-o ao Salgado, fábrica de massas artesanais e restaurante.  Para variar, pedimos um vinho tinto. “Desde a última vez que saímos, não tomo vinho”, diz Joaquim. “Então, nós é que te levamos para o mal caminho…”, falei. Joaquim riu.

Para ele, o Brasil ainda possui uma “elite muito provinciana”. Comentamos sobre as diferenças e semelhanças entre os governos Dilma e Cristina. Ele reconhece que há avanços nos direitos do cidadão. Mas…

Ele ficou perplexo com o grau de violência inscrito na história argentina. Falamos sobre os desaparecidos pela ditadura militar argentina, um número bem maior do que os da ditadura brasileira.

Sobre as eleições, eu comentei: “Não voto há anos. Rompi a regra só uma vez: votei no Lula para presidente em 2002, e me arrependi.” Joaquim me disse: “Eu votei no Lula em 2002 e em 2006.” Confesso que fiquei perplexo. “Em 2006? Ou seja, depois que foi descoberto o mensalão?”. “Sim”, disse Joaquim. “Mas você não via nenhuma relação entre o Lula e os acusados, agora provados criminosos?”. “Não”, disse Joaquim. “Eu trabalhei pela condenação dos que estavam comprovadamente culpados. No caso do Lula, eu não tinha nenhuma prova real de que ele estivesse envolvido.” Mas tem mais: ele votou na Dilma. “Como eu disse, não tenho provas concretas de um real envolvimento da Dilma e do Lula com os corruptos condenados. Mas acho que representaram um avanço em termos sociais.” Falei que eu não achava exatamente a mesma coisa…

Mas Joaquim é um defensor da mais estrita justiça e só condena alguém – ainda que seja só verbalmente – quando tem muitas provas suficientes. Que ironia: muita gente ligada ao PT criticou Joaquim Barbosa por ele ter condenado petistas, o que viram como uma “perseguição política”. Ora, mas o próprio Joaquim votou no PT nesses anos todos… Às vésperas das últimas eleições de 2014, eu reafirmei minha decisão de anular o voto. “É”, disse Joaquim, “nestas eleições, não sei em quem votar”…

Procurado por setores ligados ao PSDB para obter seu apoio público, Joaquim Barbosa desconversou. “Mas, Joaquim”, provoquei mais uma vez, irônico, “e essa história de você como presidente da República?”, já sabendo a resposta. Ele sorriu: “Que presidente, que nada. Eles não me conhecem. Não quero fazer nenhuma carreira política.”

 

A volta

Depois de umas palestras que deu no Brasil, Joaquim voltou a Buenos Aires, cidade que adorou e que escolheu para prolongar sua estada de lazer, mas também de leituras sobre a realidade argentina. Recebi uma mensagem dele pelo celular: “Vamos tomar um chope?”. Um modo de dizer, pois sempre tomamos vinho, mas neste caso, como fazia calor, propus a ele provar umas cervejas artesanais feitas em Mendoza pelo próprio bar, o Jerome, The Beer Republic, em Palermo.  Desta vez, como era uma noite quente, Joaquim estava sem chapéu. Comentou sobre a tentativa de políticos querendo-o fazer se envolver com as eleições e com algumas retaliações que ainda vem sofrendo pela sua atuação no caso do mensalão.

Em Buenos Aires, longe da realidade política brasileira e do dia a dia no âmbito da Justiça, Joaquim relaxa. “Estou aperfeiçoando o meu espanhol com uma professora daqui”, diz, entusiasmado. “Assim, vou melhorando o idioma, conhecendo as especificidades do espanhol do Rio da Prata.”

Joaquim não fala alto, não se mostra indignado ou enfurecido com nada, apesar dos pesares. Fazendo academia, lendo, descansando, saindo, curtindo a cultura da cidade, estudando, se sente melhor, inclusive com menos dores. “Estou fazendo acupuntura”, me contou. E combinamos de sair, mas ele explicou: “Mas não pode ser na terça-feira”, disse, “porque saio de uma sessão de quase três horas de acupuntura, onde me sinto como um leitão todo espetado…”. No final, não sairíamos, mas nos encontraríamos depois de sua acupuntura para comer uma massa no apartamento que ele alugou. “Tem uma fábrica de massas ótima aqui do lado do edifício”, disse.

Cheguei às 20h30 e toquei o interfone. Observei que a fábrica de massas já estava fechada: o horário de funcionamento era até as 20h30… Joaquim me recebeu de abrigo e boné. “Xi, a fábrica de massas já fechou!… Mas vamos pedir alguma coisa por delivery.”

O apartamento é amplo e sóbrio. Num cesto ao lado do sofá, estão vários chapéus usados pelo Joaquim, que me levou à cozinha: “Vinho ou cerveja?”. “Vinho”, respondi, que tinha levado duas garrafas. Joaquim as ignorou. “Abre esse aqui.” Era um Luigi Bosca malbec. Então, Joaquim abriu seu tablet (que ele pronuncia tabléti) numa página de serviços de pedidos de comidas em vários países. Selecionou o lugar (“Já pedi desse restaurante outro dia, a comida era boa”), e pedimos um cordeiro.

Enquanto eu bebericava o vinho tinto, Joaquim só bebia água. Mas quando chegaram os pratos, ele não resistiu: “Vou tomar só uma tacinha…”. Joaquim é muito comportado com as bebidas alcoólicas e não fuma. Depois do jantar, ele se deitou num divã, que faz jogo com um grande sofá, um modo de apaziguar as dores, e assim ficamos conversando.

“Muitas pessoas me visitaram aqui em Buenos Aires”, contou, “alguns amigos, até um pessoal do PSDB pedindo apoio… Não me interessa me meter em política, quero fazer o meu trabalho de consultoria, assessoria, palestras. Vou continuar morando em Brasília”. “E aí, Joaquim? Alguma namorada?”. Joaquim conheceu algumas mulheres aqui, todas simpáticas, interessantes, que o ajudaram a ver melhor a cidade, mas parece que já estavam comprometidas, como uma recente. “Não, ela tem namorado”, me disse. “Não tenho saído muito desta vez. Faço musculação, acupuntura, espanhol, leio, escuto música…”. Todas coisas que ele há muitos anos não tinha quase tempo para fazer.

Falei que tinha uma afilhada que há pouquíssimo tempo mora em Brasília, fazendo mestrado. “Ah, dá o meu e-mail pra ela”, falou imediatamente. Joaquim está longe de ser uma estrela, e se o é, terá sido por força do cargo, não por uma ambição desmedida.  Nosso amigo em comum o define assim: “Nunca vi um cara tão culto e tão simples”.

Nunca tive muita vontade de conhecer Brasília. Mas, além da minha afilhada e de dois amigos, agora eu gostaria de visitar mais uma pessoa: o Joca.

Publicado em 02-12-2014 na categoria Gerais | 4 Comentários »

« Post Anterior Próxima Página »