Sylvain Chomet faz reaparecer Jacques Tati como personagem principal, como ele o foi em vários filmes, só que agora como desenho de animação. Mas vai além: faz reaparecer uma ingenuidade perdida, uma beleza da simplicidade e da dignidade que atualmente é atacada por todos os lados.
Nas peripécias do mágico que tenta ganhar a vida com seu trabalho de artista, Tati vai perdendo não somente oportunidades, mas a própria esperança. Nesse ponto, embora já houvesse nos filmes que vi de Jacques Tati uma propensão à não-ação, à indiferença em relação ao pior do mundo, aqui, neste filme de Chomet, desenha-se, nítido, o desencanto.
Não posso evitar refletir sobre mim mesmo, o mundo em que tive que viver, tudo o que eu escrevo. Tenho a impressão nítida de que minha vida foi um fracasso, desdobrado em vários níveis. Não pude ter a casa que eu quis, como eu quis, para sempre. Não pude manter uma relação amorosa por muito tempo, a não ser a primeira vez (quando se é jovem), pelo menos por enquanto. Não consegui nunca um trabalho que me desse segurança. Tenho apenas quatro ou cinco amigos, e há pelo menos dez anos não fiz nenhum amigo novo, e atualmente vivo na mais absoluta solidão de amizades, fora os amigos que perdi, por traição (deles), por abandono (deles), por decepção e desgosto (meus). Não consegui que nenhuma das minhas idéias, meus projetos e sonhos em termos políticos ou culturais se realizasse. Por fim, nunca fui um escritor, ou seja,alguém reconhecido como tal, que trabalha como tal e que é solicitado em diversos lugares. Porque um escritor é um autor que foi aceito e promovido pelo sistema literário (editoras, imprensa, universidades, críticos...), toda uma espécie de máfia da qual sou excluído e na qual, inclusive, não quero entrar, participar, mas apenas ter a oportunidade de que pessoas dos mais diferentes lugares me conheçam, o que nunca pude conseguir.
Em O ilusionista, o trabalho de mágico não consegue dar ao protagonista o que ele procura. Mal para o artista, que tem sua sobrevivência (sobrevivência artística) debilitada e ameaçada; péssimo para o mundo, que vai perdendo artistas para a mídia mais estúpida.
Sylvain Chomet, por fim, me faz pensar que não só "o sonho acabou", no dizer de John Lennon (coisa que todos nós, ingênuos, não quisemos ouvir): o verdadeiro artista também pode estar no fim.
Realmente, para viver de uma arte autêntica, radical e digna hoje, nem mesmo fazendo mágica.
Publicado em 23-03-2011 na categoria Filmes |
2 Comentários para “Jacques Tati e a sobrevivência do artista em “O ilusionista”, de Sylvain Chomet”
Acredito que reconhecimento é algo que todos nós, seres humanos, desde criança queremos. Quando nos tornamos adultos, temos que manter nossos sonhos e desejos de expressão vivos em meio ao que, paralelamente, rege o mundo. Temos que buscá-los todos os dias. Não podemos esperar reconhecimento para nos expressar. Muitos de nós são visionários e, portanto, recebem reconhecimento tardio. É preciso continuar acreditando no valor da sua arte seja ela o que for. Temos que relativar vida e nosso papel nela. A falta de amigos, às vezes, significa nossa vontande de solidão para nos solidificarmos. As pessoas só se aproximam quando deixamos. Assim como tudo na vida, a percepção do que somos e do que é o mundo são uma interpretação pessoal. Caso a filha do Tati não tivesse enviado o material para Chomet e ele acreditado no projeto do filme, hoje The Illusionist não existiria, você não teria escrito sobre o assunto no seu blog e eu não teria lido e comentado. Vamos entender o que acontece, buscar inspiração e seguir em frente. Viver no presente traz a base para o futuro e contrói o passado.
A partir de uma destas mínimas e misteriosas aproximações de fios, destes enredamentos fortuitos do acaso ou do destino, cá estou, apreciando teus escritos… Seguirei viagem, e voltarei, mas deixo, por enquanto, abraços alados azuis!
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