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Jacques Tati e a sobrevivência do artista em “O ilusionista”, de Sylvain Chomet

No documentário Vinicius,  de Miguel Faria Jr., Chico Buarque comenta que, nos dias de hoje, não haveria espaço para Vinicius de Moraes. Poeta do amor e do desprendimento, de certa inocência e da mais obsessiva busca pela paixão, desapegado ao dinheiro (ganhava, mas não acumulava), Vinicius hoje seria massacrado pela mediocridade geral e pelo surto permanente de corrupção quase ao nível familiar, que estende o caos e a destruição de tantos valores em que acreditamos algum dia. O filme de animação O ilusionista, de Sylvain Chomet, de uma beleza rara no panorama cinematográfico (cinematográfico? Cultural em geral), justamente traz de volta uma espécie de "Vinicius" francês, pelo menos na inocência e na delicadeza incisiva com a qual critica o mundo. A partir de um roteiro deixado inédito por Tati, o diretor Chomet constrói essa bela história de um mágico que tenta sobreviver se apresentando onde for possível, para minúsculas platéias, em diversos lugares. Sua solidão é acompanhada de outra, a de uma menina que o segue por suas viagens  e pela qual ele toma um forte carinho. No entanto, este não é exatamente um mundo para os artistas. Sylvain Chomet faz reaparecer Jacques Tati como personagem principal, como ele o foi em vários filmes, só que agora como desenho de animação. Mas vai além:  faz reaparecer uma ingenuidade perdida, uma beleza da simplicidade e da dignidade que atualmente é atacada por todos os lados. Nas peripécias do mágico que tenta ganhar a vida com seu trabalho de artista, Tati vai perdendo não somente oportunidades, mas a própria esperança. Nesse ponto, embora já houvesse nos filmes que vi de Jacques Tati uma propensão à não-ação, à indiferença em relação ao pior do mundo, aqui, neste filme de Chomet, desenha-se, nítido, o desencanto. Não posso evitar refletir sobre mim mesmo, o mundo em que tive que viver, tudo o que eu escrevo. Tenho a impressão nítida de que minha vida foi um fracasso, desdobrado em vários níveis. Não pude ter a casa que eu quis, como eu quis, para sempre. Não pude manter uma relação amorosa por muito tempo, a não ser a primeira vez (quando se é jovem), pelo menos por enquanto. Não consegui nunca um trabalho que me desse segurança. Tenho apenas quatro ou cinco amigos, e há pelo menos dez anos não fiz nenhum amigo novo, e atualmente vivo na mais absoluta solidão de amizades, fora os amigos que perdi, por traição (deles), por abandono (deles), por decepção e desgosto (meus). Não consegui que nenhuma das minhas idéias, meus projetos e sonhos em termos políticos ou culturais se realizasse. Por fim, nunca fui um escritor, ou seja,alguém reconhecido como tal, que trabalha como tal e que é solicitado em diversos lugares. Porque um escritor é um autor que foi aceito e promovido pelo sistema literário (editoras, imprensa, universidades, críticos...), toda uma espécie de máfia da qual sou excluído e na qual, inclusive, não quero entrar, participar, mas apenas ter a oportunidade de que pessoas dos mais diferentes lugares me conheçam, o que nunca pude conseguir. Em O ilusionista, o trabalho de mágico não consegue dar ao protagonista o que ele procura. Mal para o artista, que tem sua sobrevivência (sobrevivência artística) debilitada e ameaçada; péssimo para o mundo, que vai perdendo artistas para a mídia mais estúpida. Sylvain Chomet, por fim, me faz pensar que não só "o sonho acabou", no dizer de John Lennon (coisa que todos nós, ingênuos, não quisemos ouvir): o verdadeiro artista também pode estar no fim. Realmente, para viver de uma arte autêntica, radical e digna hoje, nem mesmo fazendo mágica.

Publicado em 23-03-2011 na categoria Filmes |



2 Comentários para “Jacques Tati e a sobrevivência do artista em “O ilusionista”, de Sylvain Chomet”

  1. Fabiana Reis Falou o seguinte:
    No dia 16-04-2011 as 17:31

    Acredito que reconhecimento é algo que todos nós, seres humanos, desde criança queremos. Quando nos tornamos adultos, temos que manter nossos sonhos e desejos de expressão vivos em meio ao que, paralelamente, rege o mundo. Temos que buscá-los todos os dias. Não podemos esperar reconhecimento para nos expressar. Muitos de nós são visionários e, portanto, recebem reconhecimento tardio. É preciso continuar acreditando no valor da sua arte seja ela o que for. Temos que relativar vida e nosso papel nela. A falta de amigos, às vezes, significa nossa vontande de solidão para nos solidificarmos. As pessoas só se aproximam quando deixamos. Assim como tudo na vida, a percepção do que somos e do que é o mundo são uma interpretação pessoal. Caso a filha do Tati não tivesse enviado o material para Chomet e ele acreditado no projeto do filme, hoje The Illusionist não existiria, você não teria escrito sobre o assunto no seu blog e eu não teria lido e comentado. Vamos entender o que acontece, buscar inspiração e seguir em frente. Viver no presente traz a base para o futuro e contrói o passado.

  2. Ana Luisa Kaminski Falou o seguinte:
    No dia 17-05-2011 as 16:58

    A partir de uma destas mínimas e misteriosas aproximações de fios, destes enredamentos fortuitos do acaso ou do destino, cá estou, apreciando teus escritos… Seguirei viagem, e voltarei, mas deixo, por enquanto, abraços alados azuis!

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