Filho de mãe cigana andaluz e de pai árabe, o cineasta Tony Gatlif nasceu na Argélia, ex-colônia francesa do norte da África, zona mediterrânea, e mais de 40 anos depois realizou um filme-viagem impressionante, que mistura a saga de seus dois personagens principais à sua própria condição em meio à cultura francesa atual. Trata-se da obra “Exílios”, que foi premiada no Festival de Cannes em 2004. Retomando um modo cigano de ver o mundo, além do desconforto de um olhar exilado, Gatlif realizou o filme “Exílios” percorrendo 7.000 km de carro, trem, barco e mesmo a pé entre a França e a Argélia. Nessa busca de suas próprias origens, os personagens (o homem é argelino, e a mulher, uma francesa de origem árabe) erram em busca de um sentido qualquer fora da Europa, que já não lhes diz muita coisa, mas tampouco encontram abrigo numa cultura que é um misto de fascínio e estranheza, e que os coloca em confronto consigo mesmos. Belo filme, em que foram gastos 55.000 metros de película!
A última obra de Tony Gatlif se chama “Transilvânia” e se passa na Romênia. Também nesse filme um grupo vai em busca de algo, que podemos pensar se cristalizar na procura de uma personagem por seu amor perdido, mas na verdade o diretor retoma aqui um descentramento em relação à vida atual (à Europa, à condição do homem e da mulher, à situação dos migrantes e muito mais), em imagens de um estranhamento e uma beleza incomparáveis. Forte nos dois filmes é a música, obra do próprio Gatlif com elementos flamencos, ciganos, ela própria marcando a diferença em relação à música ocidental mais comercial.

Em “Transilvânia”, vemos uma Europa que sequer imaginamos, na qual, ao lado da pobreza e da marginalidade, encontramos, ao mesmo tempo, a permanência de práticas culturais quase esquecidas e as garras da globalização, fruto dessa Europa unida em torno do capital e do lucro, cuja civilização, depois de séculos e séculos de espoliação, continua a massacrar a diferença, dentro e fora do continente europeu.
Publicado em 23-01-2008 na categoria Filmes |
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