
Poucos cineastas brasileiros serão tão densos, poéticos e perturbadores quanto Lina Chamie. Já em seu primeiro longa-metragem, “Tônica dominante” (2001), havia um percurso singular no filme, sobretudo musical, com um roteiro marcado pela sinuosidade e pela não-discursividade tradicional. Agora, em “A Via Láctea” (que fez sua estréia na mostra paralela “Semana Crítica” no Festival de Cannes), a diretora compôs com maestria um poema dedicado ao amor e, mais precisamente, à vertigem do desejo e suas barreiras. No roteiro, o deslocamento do protagonista (Marco Ricca, de “O invasor” e “Crime delicado”) em busca do amor talvez perdido (Alice Braga, de “Cidade de Deus” e “O cheiro do ralo”) é pontuado pela volta constante a situações passadas, mas também possibilidades futuras. Cada flash-back, na verdade, pode ser uma premonição ou uma alternativa. Tudo o que se descortina pela frente é o imprevisível. Nessa busca de espaço para amar, o personagem, na verdade, se depara com o enclausuramento. Na cidade de São Paulo, na metrópole afogada pelo trânsito e pelos edifícios-pedras, já não há mais espaço. E toda a fuga esbarra no seu obstáculo correspondente: ao céu infinito, se opõe a dureza do asfalto; à luz solar, a noite e a chuva; ao fluxo livre, o engarrafamento; à vida sem amarras, o perigo de morte; à arte, o obstáculo. Como fazer um filme?
A diretora com os atores Marco Ricca e Alice Braga

Sobre tudo isso, o tempo, implacável, que corre, enquanto o personagem permanece travado, longe do objeto do desejo. Num momento, ele recorre ao Fragmentos do discurso amoroso, de Roland Barthes, mas não encontra ali uma solução. Barthes escreveu que a literatura, não podendo se desvencilhar da língua, pode trapaceá-la. Como trapacear o tempo? Em vez de esculpi-lo, como queria Tarkovski, talvez o dilema de Lina Chamie seja o de trapaceá-lo, contorná-lo e fazer um cinema que, puro tempo, nos lance quase para fora dele, como a imaginar uma vida fora deste tempo fechado e circular em que nos encontramos hoje em dia. O filme também é, assim, uma denúncia e uma crítica de nossa miséria social e cultural, porém sem as facilidades demagógicas, populistas, midiáticas ou o que quer que seja, tão comuns no cinema brasileiro. Lina Chamie, ao contrário, é contundente ao mostrar o indivíduo perdido e amarrado em meio a um espaço abarrotado. E essa pungência se desenha pelo roteiro, pela bela e instigante fotografia, pela música de Schubert, Mozart, Satie, Franck, mas também Manu Chao. E há a poesia destacando a alma dos personagens, com Drummond, Bandeira, Mário de Andrade e outros desafiando a cidade e apontando nela tudo o que mata o desejo e o amor, tudo o que a arte procura recuperar e atualizar. Enquanto o tempo massacra o indivíduo (imagens gravadas em MiniDV, 80 % do filme), há o imaginário de espaços diferentes (20 % gravado em película). E em tudo, a vertigem, o abismo presente, mesmo em meio ao amor, como na cena no alto do Edifício Martinelli. Buscar uma alternativa à loucura urbana e ao tempo presente tem seus riscos (como fazer um filme como este): a morte que espreita. Como o indivíduo e a arte vão perdendo mais e mais sua importância, a morte passa a ser comum. Morrer uma pessoa é como morrer um filme, é como morrer o cachorro de “A Via Láctea”. Daí a contradição que Lina Chamie acusa: a desimportância da arte, do cinema (mais vale que se possa viver com espaço para o amor e o desejo); e, ao contrário, a relevância deles para se contrapor à morte. Clarice Lispector escreveu: “Quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo”. Lina Chamie imagina um tempo e um espaço em que o cachorro viva e se faça cinema.
Publicado em 16-03-2008 na categoria Filmes |
2 Comentários para “A vertigem do desejo em “A Via Láctea”, de Lina Chamie”
tenho procurado dvd dos filmes de lina chamie e não encontro. existem? assisti “via láctea” e me surpreendi com a beleza do tudo. música, texto, poetas citados,atores,cenários. …e fiquei admiradora de lina.tenho procurado dvd em locadoras mas não enocntro. sobre seu texto:foi muito esclarecedor. abriu meu foco de visão , coisas que não tinha me aprofundado e vc trouxe à tona. lina chamie é uma cineasta com up grade, pena que a mídia carioca não tenha percebido isso. talves pinimba entre sp-rio, ou falta de refinamento mesmo. s´aceita o que já está consagrado. gostei do seu texto. me clareou. tinha sentido tudo isso mas a ficha não tinha caído.
oi, renato,
primeira visita que te faço. comecei por essa crítica (muito boa) porque vi o filme (falei um pouco dele no meu blog) e gostei muito. acho que a lina faz música quando filma. imprime sonoridades na película, transforma melodias em imagens.
parabéns pelo sucesso do site. 12 mil visitas! fiquei até com inveja.
beijo
milu
Deixe um comentário