Chega um momento em que toda a escritura me parece inútil. Para quem escrever? É certo que tenho um site, um blog (no qual nunca escrevo...), mas quantos leitores lêem algo, e dos que leram algum texto, quantos têm a ver comigo? Não sendo um escritor com acesso a leitores, vedado às editoras e à mídia em geral - que só querem o que lhes dá lucros -, vou perdendo o interesse por escrever. Por isso, embora eu adore ler cartas, diários, biografias, tenho muita dificuldade em manter um diário. Já tentei algumas vezes, mas começo e depois não continuo. Tenho preguiça de escrever. Mas, como diz Cioran, "a preguiça é o ceticismo da carne". Além dos mais, o que quero escrever chocará a maioria dos possíveis e abstratos leitores. Sempre tenho a impressão (impressão, não: a certeza) de que não pertenço a esse mundo. Se eu escrever o que penso (já escrevi muitas coisas, no livro
Silêncios, que está em meu site, mas ninguém o lê, ou se lê não comenta, assim não fico sabendo). Nada do que penso é comum à maioria. Por exemplo, uma frase:
"Não acredito em um ecologista que tenha filhos." A maioria absoluta dos ecologistas não vai gostar. Ou essa: " A Ecologia é a ciência que objetiva o lucro disfarçado de boa ação". Quem vai assinar embaixo?
Outras:
A democracia? "A democracia,desde os gregos, é um sistema político baseado na exploração de muitos por pouquíssimos. Continua igual."
O sonho? "'O sonho acabou'", disse John Lennon. Mas ninguém lhe deu ouvidos."
A política? "A política é a estratégia da mentira. Todo político - de 'esquerda' ou de 'direita', 'revolucionário' ou 'conservador' é um enganador. Participa dessa farsa que é a democracia, o regime eleitoral, para colocar no governoquem já está lá, por meio do poder e do capital."
A igreja? "A igreja católica foi e é um dos mais terríveis meios de aniquilamento do pensamento e de qualquer liberdade nos últimos 2 mil anos." As outras igrejas? O mesmo.
A liberdade? "A liberdade é uma ficção."
Ter filhos? "Ter filhos é o máximo do egoísmo e da arrogância dos seres humanos, egoístas e arrogantes por natureza. Ter filhos é atentar diretamente contra a vida no planeta."
O futuro? "O futuro é uma invenção dos enganadores."
A ética? "A ética é o discurso que permite que todos, da boca pra dentro, sejam corruptos: na família, em casa, no trabalho, na rua... Quando se chega a um alto cargo, o nível de corrupção também aumenta de nível. A admiração que o povo tem pelos poderosos é a medida de sua inveja."
Não, não sou um escritor "marginal", porque não estou nem mesmo à margem: estou
fora, não me sinto pertencente essa espécie, a do
homo sapiens, destruidora, esmagadora, arrogante. Os cinco séculos de conquista e saque das Américas e da África, por exemplo, o que foram? Cinco séculos de esmagamento, de genocídio, e esse esmagamento e esse genocídio sustentaram a riqueza contemporânea da Europa, que, por certo, tem belos representantes no poder: Sarkozy, Berlusconi, Merkel...
Que bela civilização!
Os escritores que, apesar de tudo, mantinham um diário tinham, no fundo, a idéia de que seriam lidos, pois eram lidos, publicavam livros - não é o meu caso.
Pode ser que eu esteja deixando de escrever, abandonando a "literatura". O que não é fácil, pois, como disse Michaux, "o artista é aquele que não resiste à pulsão de deixar rastros". Outro egoísta ou arrogante?
Abandonar a escrita, em todo caso, também não é simples. Como escreveu Clarice Lispector: "A arte de abandonar não é ensinada a ninguém".
Publicado em 21-03-2011 na categoria Gerais |