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O fim do Brasil

Nas últimas décadas, o capitalismo mudou sua estratégia de acordo com as necessidades do momento. Quando precisou impor a força contra movimentos revolucionários na América do Sul, apoiou as ditaduras militares. Quando conseguiu matar, seqüestrar, prender e torturar milhares e milhares de pessoas, e quando, com a ajuda imprescindível da grande imprensa e da igreja católica, apagou os últimos vestígios de inteligência crítica, então passou à "democracia", ou seja: um sistema no qual o povo acredita que há democracia. Na verdade, a "democracia" hoje é um sistema pelo qual o grande capital financeiro e industrial explora um país elegendo quem quiser como governantes através do dinheiro e do marketing político. Uma dessas etapas estratégicas foi o neoliberalismo, quando o capitalismo, cada vez mais em crise, empurrou para a América Latina produtos, capital, multinacionais, ideologias, tecnologias, idéias que dão lucro e até empresários. Tudo isso para tentar reverter a crise já permanente do capitalismo mundial. Aqui na América Latina,  onde o grande capital estrangeiro, financeiro e industrial  manda e desmanda, o capitalismo elege os governantes que servem aos seus interesses. Antes, foram ditadores. Agora, que já não há inteligência crítica nem revolta, eles escolhem governantes "democráticos". Não só "democráticos": "democráticos"  e corruptos, que se venderam ao capital, que traíram seus ideais (supondo que tinham algum) do passado em favor do mais desenfreado capitalismo moderno:  leia-se superexploração dos trabalhadores, diminuição da saúde e da educação públicas, ataque ao meio ambiente, ataque aos índios, ataque a tudo o que seja empecilho para a devastadora máquina capitalista em ação. Como se não bastasse o controle do capital estrangeiro sobre os governos latino-americanos (menos em Cuba), o capitalismo atual também determinou mudanças nas relações de trabalho, na saúde e até mesmo na educação em toda a América Latina, chegando mesmo a transformar cursos e currículos com base em diretrizes do Banco Mundial, da ONU e do FMI. Todo esse período mais recente necessitava de governos "estáveis" que pudessem ter o tempo adequado para as imposições "capitais". Interessava ao capital mundial que os governos fossem reeleitos, que tivessem credibilidade. Foi então que surgiram os governos falsamente chamados de "esquerda" ou "centro-esquerda". Com a maior máquina publicitária e de marketing já montada na história política da América Latina, com o apoio de setores da imprensa, com dinheiro em milhões de dólares das mais importantes companhias de capital "nacional" e estrangeiro, esses governos se reelegeram e foram (são) populares. Nunca antes na história os povos latino-americanos foram tão enganados. Não sei se enganados. Em todo o caso, esses povos votaram nesses governantes. Agora, sem oposição, sem crítica, sem pensamento revolucionário, a política na América Latina vai atacando os últimos redutos que "obstaculizam" o chamado "crescimento econômico":  leia-se "o massacre do meio ambiente e dos índios e demais etnias e culuras minoritárias para o aumento cada vez maior do lucro". No Brasil, esse ataque se materializa na política governamental, no Congresso Nacional, no novo Código Florestal, nas novas leis que tiram a possibilidade de os índios terem suas terras como exige a Constituição, no ataque de fazendeiros a índios e líderes camponeses, no fracasso da reforma agrária e numa política agrícola que só atende ao grande capital e massacra os pequenos camponeses. Nunca, na história do País, se viu tamanho avanço da máquina capitalista sobre tudo o que pode representar algo de justo: a saúde e a educação superior estão privatizadas; o trabalho, o emprego e o salário estão cada vez mais a serviço da grande exploração das empresas, públicas ou privadas; o nível de conhecimento, de leitura e de discernimento da população diminuiu a níveis alarmantes; o tamanho da ignorância e da falta de consciência política da população brasileira é vergonhoso. A "consciência ecológica" do brasileiro é uma piada. Não há absolutamente nenhum pensamento consistente a respeito do meio ambiente, no Brasil, que tenha ganhado repercussão entre as pessoas. O nível de corrupção e individualismo da sociedade é o maior já visto, não apenas entre os políticos, mas entre todos, de empresários a trabalhadores, de comerciantes a sindicalistas, de professores a médicos, de jornalistas a estudantes. A falta de ética e de compromisso com o que quer que seja se tornou a lei geral de sobrevivência. Quanto aos "intelectuais", a situação é aterradora. Vivemos numa época em que muitos deles são subservientes, corruptos, coniventes com a destruição da cultura e do pensamento, silenciosos sobre o avanço da máquina capitalista, cúmplices da patifaria geral. Os poucos intelectuais que vão contra esse estado de coisas, incluindo os ecologistas que realmente têm slgo de valor a dizer, são recriminados, desvalorizados, humilhados e ridicularizados. Na imprensa, o nível de besteiras, distorções da realidade, falta de critério e de crítica, ausência de discussão relevante e informação adequada nunca foi tão alto.  E quando, às vezes, algum jornalista consegue publicar um texto crítico, este se perde em meio a "celebridades", "vídeos de cachorrinhos" e "terremotos, tsunamis, acidentes de trânsito e assassinatos". Estamos numa época de declínio acelerado. Como se sabe que as condições de vida no planeta estão se deteriorando rapidamente, todos querem "tirar vantagem de tudo agora". Não importa se os filhos, os netos e os bisnetos vão sofrer as conseqüências. Danem-se os herdeiros. O que importa é ter lucro já. Não importa que a mesma paisagem que dá lucro ao empresário de turismo hoje desapareça logo. Se este empresário ainda estiver vivo, ele tentará explorar outros negócios, outras paisagens, outras pessoas. Se a natureza está sendo destruída, pensam todos, acabemos de destruí-la rapidamente, porque o lucro que ganharemos com essa destruição também será rápido. Sem contar as novas possibilidades de lucro que só apareceram com a destruição do planeta, como a prospecção e a exploração de minérios no Ártico, antes inacessíveis pela enorme camada de gelo e hoje já acessíveis com o derretimento da calota polar pelo aquecimento global. Como dizia a assessora principal de Bush, Condoleezza Rice, "os desastres são uma ótima chance para os negócios". A menos que, diante dos negócios, haja índios que, depois de assassinados por séculos, resistem ao ataque às suas terras. A menos que haja territórios naturais que são áreas de preservação ecológica, impedindo a exploração lucrativa; a menos que haja minorias culturais como os quilombolas, descendentes de escravos, que insistem em viver segundo suas tradições, sem se vender à máquina capitalista gobal. Mas como disse o ex-presidente Lula, "os índios e os quilombolas" (assim como os ecologistas radicais, é claro) "são um entrave ao progresso e ao crescimento econômico". Por isso, toda a política atual (não só do Brasil, mas da maioria da América Latina) se destina a "limpar o terreno" considerado obstáculo à poderosa fábrica de dinheiro e de poder que é o capitalismo contemporâneo: esmagar as comunidades indígenas (há cerca de 200 só no Brasil), esmagar os camponeses, dando a terra aos latifundiários e às grandes multinacionais; destruir o meio ambiente, incluindo as fontes de água, liberando as terras para a grande mineração, o petróleo e o biocombustível. É o fim do Brasil? Certamente, não. Pois o capitalismo atual, cada vez mais em crise, nunca acaba. Renova seu poder, sua fonte de sobrevivência e suas estratégias, não importa o quanto custe isso para os povos. O capitalismo não acaba nem acabará. O meio ambiente não acaba nem acabará. O pensamento não acaba nem acabará. Só que tudo vai se transformando num eterno estado de podridão.

Publicado em 19-11-2011 na categoria Gerais |



2 Comentários para “O fim do Brasil”

  1. antoninha santiago Falou o seguinte:
    No dia 19-11-2011 as 22:27

    Infelizmente, ótimo! É exatamente esta percepção que compartilho com poucas pessoas. E é semprer um conforto saber que não estamos tão sozinhos assim…

  2. Walter Falou o seguinte:
    No dia 21-11-2011 as 21:14

    Acabo sentindo-me um dinossauro, diante de um planejamento minucioso que criou uma nação sem inteligência crítica e todas a suas consequências. Eu, um “Don Quixote”.

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