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“Eu, enquanto professor…”?

“Eu, enquanto professor…”? Eis aqui um uso que, para mim, pode ser um problema. A palavra “enquanto” é uma conjunção que indica tempo. Por exemplo, na frase “Eu pedalava estrada abaixo, enquanto ele me fotografava”, “enquanto” mostra a simultaneidade das duas ações, “pedalava” e “fotografava”. Vejam que “enquanto”, aqui, está relacionado ao verbo “fotografava”. Por outro lado, alguém pode afirmar: “Enquanto eu for nadador, vou participar de torneios”. Neste caso, não se trata de uma simultaneidade de ações, mas sim de um período de tempo durante o qual o sujeito pratica esse esporte. A palavra “enquanto” delimita esse tempo. Pois bem, o problema é quando se usa a palavra “enquanto” no sentido de “na qualidade de”. Explico. Vejamos esta frase: “Eu, enquanto nadador, recomendo o uso dos óculos de natação”. Aqui, a palavra “enquanto” não indica tempo, mas uma condição, exatamente a de ser o praticante desse esporte. Não quer dizer, portanto, que ele recomenda o uso dos óculos apenas enquanto for nadador, mas sim os recomenda porque é um nadador, tem experiência na prática e conhecimento adquirido por ela. Ou, seja, os recomenda “na qualidade de” nadador. Só que esse uso me “soa” mal, porque pode causar certa confusão, induzindo o receptor a ver aí uma acepção de tempo. Vejamos este exemplo: “Ela, enquanto professora, sempre exigia muita leitura de seus alunos”. Se a frase se refere a uma aposentada, a palavra “enquanto” pode dar a entender que ela exigia muita leitura na época em que ainda não tinha se aposentado, mas não exige mais. O que, na prática, pode não ser verdade. Mesmo aposentada, sobretudo na situação do professor no Brasil, possivelmente ela continua dando aulas em algum lugar para sobreviver. E continua exigindo muita leitura! Pelo menos, esperamos isso. Portanto, podemos entender a frase como “Ela sempre exigia muita leitura de seus alunos em sua atividade de professora”. Pode ser que não exigisse tanto com seus familiares ou amigos… Então, neste caso, a acepção de “enquanto” seria “na qualidade de”. Para evitar ambiguidades, eu sugiro não usar “enquanto” nessa acepção. Melhor seria buscar uma alternativa. Exemplos: “Ela, como professora…”; “Ela, na qualidade de professora…”; “Ela, por ser professora…”.

Publicado em 31-01-2016 na categoria Gerais | 2 Comentários »



2 Comentários para ““Eu, enquanto professor…”?”

  1. Lourdes Novaes Falou o seguinte:
    No dia 01-02-2016 as 10:11

    Muito bom, Renato. É disto que eu, aqui, na minha área de atuação na educação, vivo tratando. Tornou-se um vício este uso de “enquanto”… E vício, você sabe como toma conta da pessoa, aqui, no caso, do usuário da língua.
    Continuemos, pois, a exercer a nossa missão…
    Grande abraço.

  2. João Falou o seguinte:
    No dia 08-03-2016 as 14:48

    Meu apoio total a esse texto. Também abomino o uso de “enquanto” nos casos mencionados no texto.

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