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Alerta! Os artigos estão desaparecendo!

Há uma moda estranha, no Brasil, de suprimir os artigos definidos e indefinidos. Cito aqui três exemplos tirados da imprensa: “Instituto confirma visita de Lula a tríplex e volta a negar propriedade” (O Estadão, 31/1/2016); “Pós-graduação ajuda a mudar rumo da carreira” (Gazeta do Povo, 31/1/2016); “Alta incansável do oceano ameaça varrer do mapa nação do Pacífico” (The New York Times em português, 4/12/2015). Se estivéssemos conversando com amigos, diríamos a frase do primeiro exemplo assim: “O Instituto [Lula] confirma a visita de Lula ao tríplex e volta a negar a propriedade”. Como vemos, faltaram quatro artigos. A segunda frase, nós diríamos assim: “A/Uma pós-graduação ajuda a mudar o rumo da carreira”. Acrescentaríamos dois artigos. E o terceiro exemplo, em nossa conversa, seria assim: “A/Uma alta incansável do oceano ameaça varrer do mapa uma nação do Pacífico”. Por que são feitas tantas supressões dos artigos? Seria para economizar espaço? Ora, hoje em dia, com a internet, “economizar espaço” perdeu o sentido. Facilitar a leitura para um público cada vez menos preparado? Não me parece que a supressão de artigos facilite a leitura, pelo contrário, pode dificultá-la. Mistério! Além do mais, falta coerência na imprensa. Por exemplo, na frase publicada pela Gazeta do Povo, a ação coerente seria eliminar outro artigo: o “a” de “da” carreira. A frase seria assim: “Pós-graduação ajuda a mudar rumo de carreira”. Óbvio, porque se trata de uma carreira qualquer, uma generalidade. Se, ao contrário, colocarmos “da carreira”, como fez o jornal, deveríamos perguntar: “Qual carreira?”. Nessa mania de não colocar artigos, os textos, às vezes, caem em erros graves, como este, manchete da Folha de S. Paulo de 31/1/2016: “Com canja de Gilberto Gil, Bloco da Petra atrai multidão a centro do Rio”. Poderíamos reescrever esta frase deste modo: “Com uma canja de Gilberto Gil, o Bloco da Petra atrai uma multidão ao centro do Rio”. Como vemos, acrescentamos quatro artigos. Mas a ausência do quarto artigo, “o”, é o que mancha esta frase com um erro inaceitável. O verbo é “atrair”, que é bitransitivo, ou seja, não exige preposição para “multidão” (atraio alguém, atraio alguma coisa), mas, sim, exige preposição para “centro” (atraio alguém para o centro). A preposição usada pela Folha está correta, “a”, o problema é que ficaram só na preposição e eliminaram o artigo. Alguém é atraído ao centro ou à praia. Sobretudo aqui, quando se trata de um centro definido, o da cidade do Rio de Janeiro. Do contrário, e coerente com essa onda de eliminação de artigos, o “centro” referido na frase poderia ser outro qualquer, um de umbanda, por exemplo. O pior é que, contaminados pela mídia, muitos estão escrevendo assim, suprimindo os artigos, que são fundamentais para dar clareza e coerência ao texto.

Publicado em 04-02-2016 na categoria Gerais | Faça um comentário »



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