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Incoerências do (des)Acordo Ortográfico

Parece haver um acordo entre os especialistas em Português sobre o (des)Acordo Ortográfico: é confuso. É lógico, dado que a confusão é da própria essência de um conjunto de mudanças na nossa língua que não foram discutidas suficientemente e acabaram sendo empurradas goela abaixo dos outros países que têm o português como língua oficial.
Entre outras, uma confusão perpassa o (des)Acordo: o uso do hífen. Apesar de a confusão já estar presente antes, atualmente é maior. Vejamos um exemplo: o prefixo co-. Segundo o (des)Acordo, este prefixo não exige mais o hífen, a não ser quando a palavra principal começar com a letra h ou com a vogal o. Então, a partir de agora, deveríamos escrever “coautor”, copresença”, “coparticipação”, etc. Ora, então a expressão “co-ação” agora teria que ser “coação”. Como vemos, a mudança no uso do hífen faz esta expressão ter outro significado. “Co-ação”, com hífen, significava uma ação que tem origem em mais de um agente. Já “coação”, sem hífen, significa apenas “ação ou efeito de coagir […] constrangimento, violência física ou moral”, conforme o Dicionário Houaiss.
Outra incoerência do (des)Acordo foi a supressão do trema. Este sinal servia para diferenciar a pronúncia de palavras como agüentar, conseqüência, argüir, etc., de palavras como guerra, queijo, guindaste. Nas palavras com o trema, a vogal u era pronunciada. Sem o trema, essa vogal desaparecia. Agora, se instaurou a confusão. Imagino crianças aprendendo Português lendo sem pronunciar a vogal u: “a-guentar”, “conse-quente”… Um desastre. Não é por acaso que uma comissão– da qual faz parte o eminente professor Pasquale Cipro Neto – vem estudando uma “reforma” do (des)Acordo Ortográfico para tentar torná-lo menos incoerente e mais adequado à nossa expressão. Espero que tenha sucesso.

Publicado em 21-02-2016 na categoria Gerais | 2 Comentários »



2 Comentários para “Incoerências do (des)Acordo Ortográfico”

  1. RH Falou o seguinte:
    No dia 23-02-2016 as 3:39

    Na verdade, mesmo que a palavra seguinte comece por “o”, o hífen deixa de ser utilizado com o prefixo co-. Assim, temos aberrações como coocorrente, cooócito (!), coocupante, etc. Mas depois, “microondas” já passa a ter hífen. A lógica? Nenhuma. Além disso, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da ABL passou a registar “coerdeiro” em vez de “co-herdeiro”. Portanto, é neste nível de estupidez e confusão em que nos encontramos.

  2. João Falou o seguinte:
    No dia 08-03-2016 as 14:43

    Antes do Acordo, o uso do hífen era muito mais difícil que agora.

    No comentário anterior, RH diz que existem aberrações como “coocorrente” e “cooócito”. Por que são aberrações? Que diferença ele vê entre “coocorrente” e “cooperação” ou “coordenador”? Bem, a segunda palavra até pode ser considerada estranha, já que tem três letras iguais seguidas — o que é inexistente em nossa língua. Mas essa palavra não está registrada o Volp. E vendo o significado de “oócito”, não me parece cabível o emprego do prefixo co- nela.

    Quanto à possível dificuldade de pronúncia das crianças (pronunciar /konsekente/ em vez de /konsekuente/, é um medo ilusório, já que aprendemos a falar OUVINDO e não lendo. E como elas vão ouvir os adultos dizer /linguiSa/, /sinkuenta/, /trankuilo/, simplesmente vão imitar. Entendo a gritaria de quem é/foi contra o Acordo, mas acho que ele ajudou a simplificar nossa língua.

    Ao blogueiro: li alguns de seus textos e gostei muito deles. Parabéns!

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