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Contra o populismo lingüístico

Oswald de Andrade

Oswald de Andrade

O populismo lingüístico é uma espécie de ideologia do vale-tudo na língua. No Brasil, há tantas variedades da fala, tantos neologismos e gírias, tantos “erros” ou “invenções” (depende do ponto de vista), que surgiu o populismo para aceitar tudo sem crítica. Baseado numa leitura superficial e tendenciosa da Lingüística, quando esta denuncia o preconceito social e o uso da língua como forma de segregação, esse populismo afirma, então, que tudo o que o povo fala está correto e é válido.
A última expressão desse populismo se encontra no texto de Leandro Karnal “A vida da língua”, no Estado de São Paulo de 15 de fevereiro de 2017 (cultura.estadao.com.br/noticias/geral,a-vida-da-lingua,70001665676). Para ele, tudo é válido, pois, como a língua sempre está mudando – e um exame da história nos mostra isso -, toda mudança é positiva e aceitável. Então, seguindo esse raciocínio, a importação acrítica de palavras estrangeiras, por exemplo, é legal. O vocábulo “deletar”, segundo Karnal, “não é inglês e não é português. Na origem, uma palavra latina que chegou ao francês e ultrapassou o Canal da Mancha”. Ele explica essa origem para afirmar que “criamos muito”, “é a nossa tradicional antropofagia”. Ora, em primeiro lugar, por que marcar a origem da palavra? Se denuncio o fato de importarmos acriticamente estrangeirismos, não importa se ela é uma palavra inglesa, francesa ou chinesa. Talvez Leandro Karnal tenha querido dizer que ela não é uma palavra do inglês, portanto, não devemos refazer a crítica ao inglês como língua de um império, uma língua imperialista. Ela seria uma palavra antiga, “latina”, então é como a maioria das palavras que usamos, que vêm do latim. Ora, esse raciocínio é de uma enganação atroz. A palavra “deletar” não entrou no Brasil pelo Canal da Mancha nem veio do latim. Essa palavra entrou no País impressa nos teclados dos computadores e nos manuais. Portanto, é obviamente, sim, uma expressão que veio acompanhando a tecnologia como expansão da globalização a partir de uma economia imperialista. Essa palavra significa “suprimir” ou “omitir”, e podemos também traduzi-la por “apagar”. Vejam que temos só aqui três vocábulos na língua portuguesa para a tradução. Não há, portanto, dificuldade nenhuma em traduzi-la, não há escassez de opções no português para substituir “delete”. No entanto, esse termo que chegou pelo inglês não foi traduzido. A explicação é que, mais do que uma “preguiça” mental em procurar as expressões em português que pudessem substituir “delete”, se trata de um fascínio acrítico, consumista, de tudo o que vem com a tecnologia do império estadunidense. Assim, usar o verbo aportuguesado “deletar” é mais bacaninha do que traduzi-lo por “apagar” ou “suprimir”. Esta opção é exatamente o que caracteriza a preguiça mental, sim, mas, mais do que isso, a preguiça ideológica: não se perde tempo em analisar as palavras estrangeiras que acompanham a tecnologia vinda do império nem se gasta raciocínio em tentar traduzi-las. Simplesmente, se adota “deletar” (já aportuguesada) como verbo para uso junto a essa tecnologia. Como o fascínio se estende a outras esferas da vida, passou-se a usar “deletar” em contextos que não o da informática: “Deletei essa pessoa da minha vida”, dirá alguém. Isso não tem nada a ver com o conceito de Antropofagia cunhado por Oswald de Andrade no modernismo brasileiro. Só um viés populista como o de Leandro Karnal pode desvirtuar essa idéia cara a Oswald de uma maneira acrítica e superficial, assim como Karnal desvirtuou as razões pelas quais no Brasil se usam palavras estrangeiras a rodo. Porque, para Oswald e para o modernismo brasileiro em sua expressão mais ousada, toda antropofagia é crítica. Trata-se de digerir o estrangeiro assimilando-o crítica e criativamente à nossa cultura. No caso da palavra “delete”, não há nenhuma crítica, muito menos criação.
Karnal acrescenta, ainda, que não adianta tentar “defender” a língua portuguesa de “ataques externos”, porque “o ataque não é externo, é opção dos cidadãos de dentro”. Aqui, o seu populismo chega ao auge: o valor dessas práticas lingüísticas e acríticas se deve a que seu autor é o povo, “os cidadãos”. Trata-se de uma repetição da máxima latina “vox populi, vox dei”, ou seja, “voz do povo, voz de deus”, como se tudo o que viesse do povo fosse naturalmente correto e válido, mesmo sem pensamento crítico. É o máximo do populismo. Haveria que discutir o conceito de “cidadão” e analisar se os 200 milhões de habitantes do Brasil são, de fato, cidadãos. Mas isso seria querer estudar, pesquisar, criticar e discutir. Para Karnal, isso não é preciso: se o povo fala assim, é porque está correto; está correto, porque o povo fala assim. Uma tautologia simplista com a qual todo populismo se arma para combater a complexidade e ajudar a manter o atual estado de coisas. Outra forma de dominação.

Publicado em 15-02-2017 na categoria Gerais | Faça um comentário »



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