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O ÚLTIMO SOBREVIVENTE DA LISTA DE SCHINDLER NA ARGENTINA: ENCONTRO COM FRANCISCO WICHTER

Fotos: Analía Barrera.

Francisco Wichter com Hinda. Dez 2013

Dezembro de 2013. Chegamos, eu e Analía, no horário combinado. Na calçada, apertei o botão correspondente ao apartamento. Atendeu o próprio Francisco, dizendo: “Já desço”. Como muitos edifícios de classe média, já um pouco antigos, de Buenos Aires, o porteiro eletrônico, provavelmente, não funcionava. Esperamos uns segundos, e Francisco Wichter veio nos receber. O nome “Francisco” foi adotado na Argentina. Em iídiche, seu nome é Feiwel.

Aos 86 anos, com o corpo pequeno e magro, cabelos brancos, olhos um pouco esverdeados, Francisco sorria. “Hoje, foi um dia brabo”, disse, referindo-se aos mais de 36 graus dessa tarde de primavera. Antes do anoitecer, o tempo começou a fechar.

Francisco nos abriu a porta dupla do elevador, dessas ainda pantográficas, como muitas em Buenos Aires, para que entrássemos primeiro. Igualmente na saída, no quarto andar, e nos fez passar ao seu apartamento simples, mas com um bom espaço e cheio de quadros na parede, muitos deles homenagens que recebeu nos últimos anos.

Sentamos à mesa da sala de jantar-estar, e ele nos trouxe água. Os copos tinham gravada a cruz de David. Observo o braço direito de Francisco e leio as letras “KL”. Elas foram tatuadas durante sua prisão num campo de concentração e significam, justamente, “Koncentration Lager”.

Eu tinha planejado uma apresentação amistosa, antes de lhe pedir permissão para gravar a conversa e para Analía tirar algumas fotos. Mas Francisco começou a falar, com um leve sotaque, e não parou mais.

Polônia, 1943, em plena Segunda Guerra Mundial. Feiwel-Francisco Wichter tinha 17 anos e nascera em Marski. Seu pai era um artesão que fabricava sapatos de couro, sobretudo, para os camponeses. Estavam comemorando as festas de seis dias de Sucot, uma tradição judaica. No sexto dia, chamado Hoshaná-Rabá, foram informados de que a polícia polonesa tinha assassinado seu pai a mando dos nazistas. A mãe de Francisco foi reconhecer o cadáver. Ao voltar, reunindo os filhos, falou: “Agora, vocês são órfãos de pai”. Não houve nenhuma lágrima, nenhuma palavra.

Junto com sua mãe e cinco irmãos, Feiwel foi obrigado a deixar sua casa e se apresentar em Belzitz, à disposição das forças alemãs. Nesses dias, os nazistas saquearam todas as casas de famílias judias. Roubaram absolutamente tudo. “Não ficou nem um prego”, me disse Francisco. Reuniram-se na casa de um tio com muitas famílias vizinhas. Os adultos proclamaram: dez pessoas se esconderiam no porão da casa com uma missão: sobreviver. “Na Polônia, muitas casas tinham porão para guardar as batatas, beterrabas e outros alimentos para o inverno”, me explica Francisco. A mãe de Francisco e os tios disseram a ele: “Quem sobreviver deverá contar ao mundo o que está acontecendo com os judeus”.

Noite em claro, medo e silêncio. Na madrugada, chegaram os nazistas da SS. Os dez escolhidos, entre eles Francisco, desceram para o porão escutando golpes, gritos, ordens. “Era justo o dia de Simchat Torá, uma festividade judia”, me conta, “a ocasião em que os nazistas apareceram para nos caçar.” Minutos antes, sem tempo para se despedir, olhou para sua mãe, na iminência de ser presa com seus irmãos e outros parentes e vizinhos. “Nunca, até hoje”, me disse Francisco, com seus 86 anos, “me esqueci do olhar de minha mãe.”

Todos os seus parentes foram levados para algum campo de concentração, talvez o de Treblinka, e mortos em câmaras de gás.

Assim, começou a saga de Francisco Wichter por vários campos de concentração nazistas, indo de inferno a inferno. Apesar das condições desumanas de sobrevivência e da brutalidade nazista, Francisco teve a seu favor uma série de acasos que o salvaram de morrer. Em 1944, depois de ter realizado várias tarefas desumanas nos diversos campos – inclusive desenterrar judeus mortos e queimar seus ossos para não deixar pistas das matanças nazistas –, Francisco conseguiu ser recrutado para trabalhar como operário a serviço dos alemães em 1944.

            Na região de Cracóvia, havia uma fábrica de panelas. Diante do avanço do exército soviético, o dono da fábrica decidiu fechá-la para abrir uma fábrica de munições em Brünnlitz, na Tchecoslováquia, sua terra natal. Obviamente, nas condições impostas pelos nazistas: trabalho pesado e sem nenhuma remuneração – assim, os nazistas exploravam os judeus como mão-de-obra extensiva e gratuita. Para essa empreitada, o empresário negociou com os nazistas a permissão para os judeus dormirem na fábrica mesmo, assim não perderiam tempo de trabalho e economizariam no transporte. Os alemães concordaram, e cerca de 200.000 judeus foram deslocados para a nova fábrica.

O nome do proprietário dessa empresa entraria para a história: Oskar Schindler.

Com melhores condições de existência, apesar do árduo trabalho, e a proteção de Oskar Schindler e sua esposa, Emilie, uma grande quantidade de judeus escapou da tortura e da morte provocadas pelos nazistas. O trabalho na fábrica durou do outono de 1944 a maio de 1945, quando terminou a guerra, e os operários judeus foram libertados. No dia 8, Oskar Schindler reuniu os operários no pátio e, apesar da proibição nazista, ordenou que ligassem o rádio e que todos escutassem. A Alemanha tinha se rendido.

A história do destino dos judeus trabalhadores nessa fábrica está contada no filme “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg.

 

Depois

Com o fim da guerra, Francisco Wichter perambulou por uma Europa totalmente destruída e miserável. Tratando de sobreviver, pensou em ir para a Palestina, na época protetorado britânico, que se tornaria o Estado de Israel em 1948. Acabou se instalando provisoriamente na Itália e, recordando o endereço de uma tia que tinha se mudado para Buenos Aires nos anos 1930, pediu à Cruz Vermelha que lhe enviasse uma carta e informasse o seu paradeiro em terras italianas. Para sua surpresa e emoção, recebeu uma carta da tia, que era sua madrinha e tratou de conseguir os papéis necessários para que Francisco fosse para a Argentina. Mas o governo de Perón não estava disposto a aceitar a imigração de judeus. O jeito foi ir para o Paraguai e daí entrar ilegalmente na Argentina. Com um dinheiro enviado por parentes, Francisco conseguiu providenciar tudo, e quando chegou à Argentina, só tinham lhe sobrado 100 dólares.  Mas, antes disso, um acontecimento selou o seu destino: Francisco se apaixonou.

 

Hinda

Hinda era polonesa, havia perdido toda a sua família, assassinada pelos nazistas, e tinha 20 anos, um menos que Francisco. Começaram a sair juntos e se apaixonaram. Contou-me Francisco que, certa época, Hinda estava triste, chorava. Francisco lhe disse: “Se você não tornar a minha impossível lá na Argentina – porque eu não sei o que vai acontecer –, se você quiser vir comigo, vem. Se conseguimos sobreviver a Hitler, como não vamos poder seguir adiante?”. E acrescentou, me olhando: “Era uma sobrevivente como eu”. Casaram-se dia 20 de abril de 1947 na Itália na casa de uns amigos, em uma cerimônia presidida por um rabino.

 

Argentina

Francisco e Hinda embarcaram no porto de Gênova levando na mala duas camisas, alguma roupa interior, um “pobre enxoval” para a esposa, fotos, um livrinho de orações, uma lata de alice e alguns limões. Depois de uma parada no Rio de Janeiro, onde tiveram que esperar durante seis semanas para seguir ao Paraguai, pois lá havia um levantamento militar, conseguiram um avião para Porto Alegre e de lá partiram para Uruguaiana, na fronteira com a Argentina. A tia de Francisco estava esperando por ele e por Hinda. Pernoitaram em Paso de los Libres e no dia seguinte tomaram um trem para Buenos Aires.

Francisco Wichter nunca mais voltou à Polônia.

 

Um filme que mudou sua vida

Durante 47 anos, Francisco jamais tocou no assunto de sua prisão nos campos de concentração nazistas. Segundo ele, na comunidade judia em Buenos Aires, nos primeiros anos do pós-Guerra, não se falava nisso. Havia um misto de vergonha, impotência e medo nas mulheres e nos homens marcados pela experiência do horror nazista. Ao longo de sua vida, entretanto, nunca pôde se desvencilhar da memória desse horror. Ele me confessou: “As feridas se fecham, mas ficam profundas cicatrizes em nossa mente, em nosso coração. Isso não se esquece. Não se pode esquecer”. E assim ia levando a vida junto a Hinda e à família que eles formaram na Argentina. Até 1994.

Nesse ano, estreou na Argentina o filme “A lista de Schindler”, de Steven Spielberg, que trata justamente de Oskar Schindler, “patrão” de Francisco em sua fábrica de munições da ex-Tchecoslováquia, onde ele era o operário nº 371. As pessoas ao seu redor começaram a comentar o filme, judeus conhecidos de Francisco o incitavam a ver a realização de Spielberg, mas ele sentia certa resistência em enfrentar o seu próprio passado exposto abertamente numa sala de cinema com um amplo público ao redor. Falou com Hinda sobre o assunto. “Não quero ver esse filme”, foi a resposta dela. Mas, um dia, Francisco decidiu ir ao cinema. Foi um choque. Sentiu-se comovido. Muitas pessoas choravam na sala. De volta para casa, passou alguns dias sem conseguir dormir. E então, começou, silenciosamente, um projeto: escrever. O relato final se intitulou “Décimo primeiro mandamento”, foi publicado em forma de livro e também num site (http://franciscowichter.blogspot.com.br).

A narrativa começou a circular, e Francisco foi gradativamente sendo conhecido em Buenos Aires como o último sobrevivente da lista de Schindler na Argentina. Procurado por familiares, conhecidos, leitores, religiosos, autoridades, Francisco se dispôs a falar e, desde então, não parou mais. “Quando saíram as primeiras reportagens sobre mim, começou a tocar o telefone. Não me davam trégua!”, disse. Para sua surpresa, ele terminou sabendo que a viúva de Oskar Schindler, Emilie, morava em Buenos Aires desde 1949. Com efeito, o casal também migrou para a Argentina, mas Oskar, que tinha uma amante e faliu em seus negócios, voltou para a Europa em 1958, falecendo em 1975. Francisco Wichter, então, voltou a ver Emilie Schindler em pessoa, uma mulher que, segundo ele, teve tanta importância quanto o marido no trabalho de salvar os operários judeus, fato que, para Francisco, ficou injustamente omitido no filme de Spielbeg.

Quando estivemos em sua casa na primeira vez, sua esposa, Hinda, permanecia calada perto de nós. Enquanto Francisco narrava, contava, conversava, Hinda só nos observava e de vez em quando dizia algumas poucas palavras. Na segunda vez em que estivemos na casa deles, tratei de conversar com ela. Como Francisco pertenceu e pertence a entidades de cultura e religião judaicas, perguntei a ela se participavam de festividades judaicas de cunho religioso. “Não”, ela me disse, “porque eu não acredito em mais nada”. “A senhora não tem mais religião?”, indaguei. “Nunca mais”, ela respondeu. “Como posso acreditar em alguma coisa depois do que passei? Como posso acreditar num Deus depois de ver nazistas arrancarem bebês de suas mães e zás!”, falou, com o gesto de um pequeno corpo sendo arrebentado contra uma parede.

Enquanto eu voltava a falar com Francisco, Hinda passou a falar com Analía. “Escute”, dizia, e começava a contar. Francisco se surpreendeu: “Antes, ela não queria falar de sua vida nunca. Eu é que escrevi sobre a vida dela. Agora, ficou tagarela”. Nós ríamos. Hinda insistia, tocando no braço de Analía: “Escute”, repetia, e narrava, narrava. “Contar me faz bem”, confessou. Hinda tem problemas de saúde, de estômago, até hoje. Mas com seus 85 anos [em 2013], faz hidroginástica. “Me sinto bem na água”, falou. Sobre o caráter dela, disse Francisco: “É uma onda suave num mar selvagem”. Hinda se negou a ver “A lista de Schindler”, mas um dia uma amiga conseguiu arrastá-la até o Museu do Holocausto, em Buenos Aires. Enquanto a amiga percorreu o pequeno museu, Hinda a esperou sentada numa cadeira.

Francisco Wichter com Hinda. 2. Dez 2013

A narrativa de Francisco cumpriu uma missão que, décadas atrás, ele tinha recebido de sua mãe e seus tios, quando foi um dos escolhidos para se esconder dos nazistas no porão e tratar de sobreviver: contar ao mundo o que estava acontecendo com os judeus.

Francisco Wichter viveu anos e anos em silêncio, sofrendo com pesadelos e uma memória amargada pelo passado.

Perguntei a ele: “Seu Francisco, e agora, depois de escrever sobre a sua história e ser lido por milhares de leitores? Ainda tem pesadelos?”.

“Nunca mais tive”, respondeu.

Publicado em 07-12-2017 na categoria Gerais | 1 Comentário »



Um Comentário para “O ÚLTIMO SOBREVIVENTE DA LISTA DE SCHINDLER NA ARGENTINA: ENCONTRO COM FRANCISCO WICHTER”

  1. Walter Falou o seguinte:
    No dia 17-12-2017 as 13:25

    Ainda não havia lido na íntegra, Renato.
    Bela e emocionante narrativa.

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