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Tango solidário em Buenos Aires

“Milonga”, além de ser uma das músicas tradicionais do Rio da Prata (Buenos Aires e Montevidéu), também é o lugar onde há aulas de tango e baile à noite para praticar a dança. O bairro La Boca, zona portuária – mas também artística – na beira do rio e marcando o limite entre a cidade de Buenos Aires e os municípios metropolitanos, é pitoresco, de classes média e baixa, e onde não é recomendável caminhar à noite em certas ruas.

Cheguei à Milonga Solidária, no bairro La Boca, às dez horas da noite. As ruas estavam meio escuras, com suas casas de chapas de metal (as mesmas da turística Calle Caminito, mas menos coloridas e habitadas por famílias comuns, não necessariamente artistas plásticos), árvores antigas e esquinas que podem ser perigosas. Na frente de um velho sobrado, com pintura descascada e partes meio carcomidas – onde embaixo funciona uma casa de móveis –, havia um cartaz de cartolina escrito à mão: “Milonga solidária”, com uma setinha indicando a escadaria. Na hall-sopé da escada, um mural indicava as atividades dessa casa que se chama “Torquato Tasso” (referência ao escritor italiano do Renascimento e mesmo nome de um centro cultural no bairro San Telmo): oficinas de música, leitura, pintura, capoeira para jovens, projeção de filmes, mostras de dança e teatro, e uma oficina de jogos para crianças. Subindo, havia como recepção duas mulheres detrás de uma mesinha e um papel escrito com o preço para “colaboração”: 10 pesos. A renda ajuda a manter as oficinas para a juventude do bairro. O lugar é mantido pelo Centro de Pesquisa e Comunicação Popular em Saúde, associação civil sem fins lucrativos.

No salão enorme, de pé-direito alto, grandes janelas de outra época e um teto meio em ruínas, havia umas 70 pessoas, a maioria na faixa entre 20 e 30 anos, espalhadas por diversas mesas. Na entrada, num caixa improvisado com outra mesinha, se compravam vinhos, cervejas, empanadas e pizzas. No meio do salão, casais dançavam tango ao som de algum aparelho antigo, com velhas gravações e um “DJ” de uns 50 anos. Vestidinhos simples, sandálias, calças jeans e camisetas, tênis e camisas populares eram a indumentária dos dançarinos, essa população jovem que há anos vem revigorando de modo impressionante o tango como dança e como música, pois também há uma infinidade de músicos jovens tocando bandoneón, violino e piano ao ritmo 2 x 4. Entre uma música e outra, algum rapaz tirava uma moça para dançar.

Nada de bolsas ou roupas de shoppings, nada de poses, nada de maquiagem perceptível, nada de consumismo ou jogo de aparências: nessa milonga, os jovens do bairro apenas se entregam à paixão natural que nutrem por essa arte tão identificada com tudo o que são e a que pertencem: a cultura argentina.

Então, pára o baile: um casal de dançarinos – que talvez sejam professores de tango – se apresenta durante dois tangos e uma milonga, mantendo o público vidrado em sua performance profissional, cheia de melancolia e sedução nos tangos, plena de ironia e malícia divertida na milonga. Aplausos intermináveis. De repente, dois garotos entram e começam a montar seu equipamento: um teclado e uma guitarra elétrica. Logo, atacam diversos clássicos do tango de modo instrumental, além de um Piazzolla. São tão aplaudidos, que têm que tocar duas músicas extras.

Volta o baile, voltam as cervejas, os vinhos e as pizzas, os olhares namoradeiros e a vontade, nos olhos dos rapazes, de tirar alguém para dançar.

Eis que, lá pela meia-noite, começam a desocultar um piano detrás de um painel de compensado, e vão entrando 11 personagens no vasto salão, acomodando-se perto do piano: são cinco bandoneons, quatro violinos, uma viola e um contrabaixo acústico. A idade média dos músicos não deveria passar de 25 anos. Os trajes não eram todos pretos, como é costume nos grupos de tango. Havia calças jeans, camisetas vermelhas e amarelas, vestidinhos e sandálias. Chega o 12° membro da orquestra: uma menina de cabelos claros e longos, camiseta verde, calça jeans e sandálias havaianas.

Quando começam a tocar, apesar de alguma nota não tão afinada quanto deveria entre os violinos, ninguém parece acreditar muito que o som que se está escutando vem dali, desses 12 jovens. Dos cinco bandoneons, dois são tocados por meninas. Alguns miram partituras, outros tocam de memória, e ninguém tem medo dos arranjos difíceis e de uma dinâmica que mostra muito ensaio. Em cada final de música, o público do salão explode em aplausos. As caras da orquestra exalavam prazer, responsabilidade, simpatia, surpresa.

De repente, entra o cantor: teria uns 26 anos, calça jeans, camiseta azul-marinho e… Sandálias havaianas. Canta com tanto ardor e profissionalismo, que chovem mais aplausos. Quando a orquestra termina, todos pedem “otra, otra” – o “mais um, mais um” brasileiro. Eles tocam. O público quer mais. Então, a orquestra repete a primeira música da noite, pois não tinham mais nenhuma música ensaiada…

Depois, com sorrisos nos lábios e as almas mais leves, apesar do calor, os casaisinhos começaram a ocupar novamente o salão e praticar seu tango, o que aprendem nas noites dos dias de semana.

Esse salão ficou em “comodato” entre a associação de bairro que o cuida e o dono do imóvel por cinco anos, em troca de reformas e a construção dos banheiros novos. Agora, o dono passou a alugá-lo. Para poder manter todas as atividades que não dão nenhum lucro, mas envolvem uma quantidade de pessoas da comunidade em formação cultural e artística, a associação ­de moradores cobra a entrada de 10 pesos nos bailes. Imagino que nenhum dos músicos ou dançarinos sejam remunerados, simplesmente colaboram com uma idéia que lhes parece justa, sem depender do Estado ou de empresas privadas.

Depois que a orquestra terminou seu espetáculo, a organizadora das atividades, uma mulher de uns 45 ou 50 anos, esperou o final dos longos aplausos, tomou o microfone para agradecer a todos os que se apresentaram e disse: “Agradeço também a todos os que vieram e colaboraram, pois queremos que os jovens que estão cursando nossas oficinas um dia possam ser tão bons e ter tanto talento como estes que acabaram de tocar”.

Mais aplausos.

Publicado em 15-12-2008 na categoria Gerais |



Um Comentário para “Tango solidário em Buenos Aires”

  1. renato Falou o seguinte:
    No dia 21-12-2008 as 17:27

    un aplauso para vos que rescatas la identidad, solidaridad y alegria de este espacio de arte barrial que nos muestra un tipo de milonga de las callecitas de buenos aires hoy.

    besos.
    MaEster

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