O lugar do artista: marginal ou integrado?

lapiz.jpgA Revista Internacional de Arte Lápiz, da Espanha, é uma das publicações européias mais interessantes, pela qualidade do debate que apresenta em torno da arte e da cultura em geral. Um dos textos mais interessantes é “En la cuerda de la mercancía”, de Piedad Solans, sobre a situação do artista em meio a uma sociedade tão massificada em que tudo vira mercadoria (mercancía). Revisitando os exemplos de Marcel Duchamp, Andy Wharol, Joseph Beuys e outros, além de pensadores como Adorno e Baudrillard, a autora esmiuça a condição atual do artista: ele consegue ser marginal dentro do sistema da arte ou não tem alternativa a não ser se integrar ao mercado acrítico?

Leia o artigo na íntegra (versões em espanhol e inglês) em Lápiz.

Publicado em 31-01-2008 na categoria Artes | Faça um comentário »

“Mulher azul”, próximo curta-metragem de Maria Emília de Azevedo

A diretora Maria Emília de Azevedo está preparando seu próximo filme, o curta “Mulher azul”, baseado num livro meu com o mesmo título. Seu projeto levou o primeiro lugar entre 28 propostas no recente Edital de Cinema de Santa Catarina. O roteiro é de Maria Emília e Marcelo Esteves.

“Um tiro na asa”, último filme de Maria Emília de Azevedo

Um tiro na asa

Minha colaboração com a diretora começou com uma “ponta” no filme “Alva paixão” (Festival de Gramado 1995) e seguiu com os textos que escrevi para “Roda dos expostos” (Melhor Fotografia em Gramado 2001, de Charles Cesconetto). A equipe de “Mulher azul” foi selecionada com rigor, tendo Charles Cesconetto na fotografia, Lou Hamad na direção de arte e Cássio Moura na trilha sonora. Leia abaixo trechos do livro.

Mulher azul (fragmentos)

Chegando em casa à noite, toda a mata exalava silêncio. No meio da estrada, estatelado no asfalto, um gambá. Me aproximei. O corpinho dele de lado, os pêlos parecendo espinhozinhos finos, o rabinho pelado e dois olhinhos pretos. Os olhinhos ainda brilhavam, úmidos. Estacionei, abri a porta, sentei na poltrona com as luzes ainda apagadas.

Se eu cantasse, tremia.

***

A sensação que mais me aflige é a de ter tanto, estar sobrecarregada de coisas para compartilhar, para ceder, e morro com tudo isso em cima de mim numa vala do grande deserto.

***

O passarinho despencou na sacada. Começou a se agitar no chão de madeira, sacolejando, mas não saiu dali. Me aproximei como quem quer roubar algo. Tinha medo de desmontá-lo, e ele ali, sem forças, num espaço que não era o dele. Dei mais um passo. Ele tentou voar, mas não pôde. Então, o agarrei. Ele quis se debater, eu agüentei. Meu coração pulava com aquela vida quente nas mãos. Todo um céu se concentrava ali, naquele vôo latente. Os olhinhos pretos dele espiando o mundo. Então, como quem não crê em mais nada, voamos.

Leia o lívro na íntegra em Mulher azul.

Publicado em 31-01-2008 na categoria Filmes | Faça um comentário »

Clarice Lispector: uma literatura com o corpo

clarice.jpgClarice Lispector escreveu: “Eu não sou intelectual, eu escrevo com o corpo”. Não há ninguém na literatura que me abale com uma delicadeza tão incisiva quanto Clarice Lispector. Em seus livros, sobretudo os mais radicais na desagregação da narrativa e na entrada em território existencial, às vezes quase filosófico, como são A paixão segundo G. H. , Água viva e A hora da estrela, por exemplo, nada é supérfluo, cada frase é relevante, e todo o texto é marcado por uma vibração que chega ao desconforto. No último livro publicado pela Editora Rocco, Minhas queridas, podemos ler as cartas que ela enviava às irmãs no período em que morou no exterior. A mesma intensidade, sua humildade, sua solidão permanente e a carência de interlocutores mais profundos, tanto culturais quanto afetivos, fazem dessas cartas algo tão belo quanto sua própria “literatura” (no fundo, é tudo uma coisa só). Nunca me conformei em saber que eu tinha apenas 15 anos quando Clarice morreu, em 1977, já que só fui ler seus livros bem mais tarde. Até hoje, a impossibilidade de escrever a ela, de conhecê-la de alguma forma, me inquieta, e só me restou, então, o recurso de uma carta que lanço ao ar, como uma garrafa era lançada ao mar em meio ao naufrágio.

Carta a Clarice Lispector

Minha angústia é que jamais vou te conhecer. Eu que, como todos, fracassei. Mas o que eu tinha para te oferecer não era esse fracasso. Era a urgência na espera, o domingo vazio que não sei ocupar. Minha companhia são os livros e os discos. Mas, se já li tudo o que é seu! E agora, que você poderia ler o que te dou de presente como uma pétala, você não está. Mesmo assim, te escrevo uma carta, que é aventura numa garrafa ao mar. Te escrevo porque minha sensatez me impede de conversar com os vivos. E choro quando penso que nasci tarde, e a hora agora é a do desprezo, da guerra e da mediocridade. Vivo para mim um minuto do outro. Como Saint-Exupéry, me perco nas areias do grande deserto – mas vôo. Este caderno é um exercício de sobrevivência. O que te dou – me perdoa – é essa dor sem remédio, mas com ela podemos nos aquecer, nós dois, em volta de uma busca com bom vinho. Se estivesses sozinha, minha vontade era beijar teus lábios grossos de esfinge. Você tem um desejo sinuoso, mas forte, que chega a assustar, e eu queria encontrá-lo. Há tempos sem te ver, já possuo o cerne do desassossego. Quando penso que você está caminhando em Copacabana esmaltada de pedras pretas e brancas e chuvas, em meio ao ruído faiscante dos pneus na água, e eu aqui, soletrando a imprecisão do instante no chuvisco frio de outono, minha vontade é de beber um conhaque – eu, você e Drummond. E dane-se a etiqueta. (Você vai rir, mas um de meus insistentes desejos é estar em sua casa, e você descalça no assoalho. Nada me convence que seus pés são pequenos, delicados, você, ucraniana, disfarçada de carioca que já viveu o mundo. Esses pés, por ora, só ao vê-los estarei contente, tal a sua disponibilidade, não em desfilar, mas descansar sorrateira e levianamente sobre o braço do sofá. Meu segredo mais remitente é que, um dia – lá pelos tantos tempos que teríamos a sós, dentro de uma nuvem de palavras e olhares –, eu pudesse massagear seus pés, quase com vergonha, com um tremor nas mãos, você fechando os olhos.) Então, quando tua empregada trouxer o café e deixá-lo sobre a mesa, você fingirá que esse meu olhar para a empregada fugidia não significa nada, apenas o café está aqui, vamos bebê-lo. Você é uma espécie de Virginia Woolf ensangüentada pela luta com uma galinha viva. Sei da voracidade latente em suas mãos, mesmo longe da máquina de escrever, mas quero contê-las como ovos, pássaros, conchas. Ter em minhas mãos a quentura inacessível de tua palavra escondida na garganta.

Hoje, vi um trinta-réis pescando. Sou hipnotizado por um pássaro comendo, tudo concentrado ali no instante inapreensível nesta frase. Não sei o que procuro, na verdade estaco diante da iminência do susto, sabendo-a, como a gota escorre, lenta, sobre a pele. Então, me atinge a fome. E tudo isso me atormenta como se eu estivesse contente, mas não, é a perdição do oco de um domingo vadio, exposto a essa brancura que é minha vida sem um risco, gente indo e vindo, e suas vozes me irritam. Mas ainda me distraio, passeio, olho a nuvem amarela do poente, mordo o pêssego, salivo o vinho branco e me acaricio. E é só. Depois, o dia desaba sem ninguém, precário, empurrando tudo. Me crispo na urgência da página, vem o teu nome, o dia se dobra sobre si mesmo, entrópico, como o caule de um segundo me sugando, a noite, uma espessura só, um jazz que me levita, e o teu perfume que imagino, mas você segue vaporosa. Esta carta é uma mão apertada, como um beijo no escuro.

Clarice 3Clarice, nada, nem o mar nem Chopin na manhã escura de um sábado de inverno, nem um jazz ao vivo ou o beijo de alguém que me arrebata, nada me assegura o mesmo espanto trêmulo que seria te encontrar na tessitura de um dia sem pressa. O fato de essa possibilidade estar extinta me esbofeteia como o vento escancarando as janelas em meio à tempestade. Não há coisa mais estranhamente triste que algo inexorável. A pulsão de escrever vem abafar esse escândalo que me entontece o corpo, a ausência tua que não pára de crescer e se arvorar no inferno. Tempo é a merda do mundo. Ele mói o o encontro possível. Meu consolo é nulo. Mas como não tenho para quem escrever, escrevo para você. Dentro dessa esfera afásica, só sou porque insisto. E escrevo porque, se estas cartas pararem nas mãos de alguém, e esse alguém acordar para a verdade jogada na cara, veludo e farpa, como te ofereço a face ao teu gesto sem luvas, e esse alguém gritar no meio da noite porque a palavra desloca as paredes e demole muros, então estarei salvo, próximo, não de tocar você, mas sentir o perfume de um corpo com sede, diante do mar inalcançável. Então, eu brindarei contigo.

Leia mais Cartas no site.

Publicado em 24-01-2008 na categoria Escritores | 2 Comentários »

Gatos: pequeno dicionário poético

GatinhoGatos: pequeno dicionário poético é um livro meu em andamento, que se encontra em meu site. Trata-se de “verbetes” meio literários, meio documentais sobre diversos aspectos da vida dos gatos e da personalidade felina. Os textos são organizados por palavras, em ordem alfabética. Aqui vai uma mostra da letra “P”, com o texto “Perdão”.

 

Perdão

Quando aquela torta de atum sobre a mesa é demasiado tentadora e, como quase tudo, está ao seu alcance, o gato saboreia, num pulo, a refeição que não foi feita para ele. Então, dá de cara com seu dono. Escuta a repreensão raivosa e chega a sentir no dorso um tapa furioso roçando-o na fuga. Segundos depois, o gato volta para perto do dono, olhos tristes e sutis, e oferece suas desculpas. O dono resiste. Ameaça, ensina uma moral ao felino, mas acaba dando o seu perdão. Quando é a vez de o dono lançar uma farpa ferina, descarregando no animal a sua fúria humana, é o gato, mais uma vez, que se aproxima, roça o corpo nas pernas do dono, alheio às razões da violência e à violência da razão, e compõe ali uma teia quase imperceptível de afeto. O dono não entende – não quer entender – e se afasta. O gato volta a procurá-lo, entregando seu corpo como uma carícia, aceitando um perdão que não lhe foi dado, perdoando aquele que resiste a ser felino, até que os dois voltem a ser, no que resta de tempo naquele dia, duas carências animais.

Leia mais em Gatos.

Publicado em 23-01-2008 na categoria Gerais | 1 Comentário »

O artista e a “carreira”

Ter uma “carreira” intelectual ou artística implica crer na possibilidade de intervir no social, de essa carreira possuir uma utilidade e de nos tornarmos, por nossos méritos, alguém necessário. (Carreira significa correr, e o que mais se vê, realmente, é uma correria pelo poder.) O professor universitário, o crítico ou o artista famoso são exemplos dessa corrida pelo poder. Renunciar ao poder não significa, entretanto, abandonar a criação (Rimbaud) nem investir contra as instituições culturais – isso seria acreditar no mesmo: não numa carreira “oficial”, mas “marginal”. Mas talvez se possa imaginar uma farsa instigante: devolver à ficção do poder o simulacro de uma ação negativa, tão fugaz que escape à possibilidade de se fazer também dela um exercício de poder.

Ler mais textos em Pequenos ensaios.

Publicado em 23-01-2008 na categoria Tapas | Faça um comentário »

O melhor do jazz na internet

Jazz 91 FMDuas rádios maravilhosas na internet especializadas em jazz são a Jazz 91 FM, do Canadá, e a Jazztrax Studio, dos Estados Unidos. A rádio canadense, com sede em Toronto, tem vários estilos, incluindo um jazz mais tradicional, mas também toca os brasileiros Tom Jobim, Eliane Elias, Luiz Bonfá e até uma versão instrumental de Ary Barroso! Em sua programação, há também entrevistas, apresentações ao vivo e pequenos noticiários produzidos pela BBC.

Jazzstrax

A Jazztrax transmite principalmente o chamado smooth jazz, mais suave, estilo George Benson, super agradável, e não tem notícias nem propagandas. As músicas são, em sua maioria, instrumentais. Duas opções imperdíveis!

Publicado em 23-01-2008 na categoria Música | Faça um comentário »

O cinema errante de Tony Gatlif

Tony GatlifFilho de mãe cigana andaluz e de pai árabe, o cineasta Tony Gatlif nasceu na Argélia, ex-colônia francesa do norte da África, zona mediterrânea, e mais de 40 anos depois realizou um filme-viagem impressionante, que mistura a saga de seus dois personagens principais à sua própria condição em meio à cultura francesa atual. Trata-se da obra “Exílios”, que foi premiada no Festival de Cannes em 2004. Retomando um modo cigano de ver o mundo, além do desconforto de um olhar exilado, Gatlif realizou o filme “Exílios” percorrendo 7.000 km de carro, trem, barco e mesmo a pé entre a França e a Argélia. Nessa busca de suas próprias origens, os personagens (o homem é argelino, e a mulher, uma francesa de origem árabe) erram em busca de um sentido qualquer fora da Europa, que já não lhes diz muita coisa, mas tampouco encontram abrigo numa cultura que é um misto de fascínio e estranheza, e que os coloca em confronto consigo mesmos. Belo filme, em que foram gastos 55.000 metros de película!

ExíliosA última obra de Tony Gatlif se chama “Transilvânia” e se passa na Romênia. Também nesse filme um grupo vai em busca de algo, que podemos pensar se cristalizar na procura de uma personagem por seu amor perdido, mas na verdade o diretor retoma aqui um descentramento em relação à vida atual (à Europa, à condição do homem e da mulher, à situação dos migrantes e muito mais), em imagens de um estranhamento e uma beleza incomparáveis. Forte nos dois filmes é a música, obra do próprio Gatlif com elementos flamencos, ciganos, ela própria marcando a diferença em relação à música ocidental mais comercial.

Transilvânia

Em “Transilvânia”, vemos uma Europa que sequer imaginamos, na qual, ao lado da pobreza e da marginalidade, encontramos, ao mesmo tempo, a permanência de práticas culturais quase esquecidas e as garras da globalização, fruto dessa Europa unida em torno do capital e do lucro, cuja civilização, depois de séculos e séculos de espoliação, continua a massacrar a diferença, dentro e fora do continente europeu.

Publicado em 23-01-2008 na categoria Filmes | Faça um comentário »

Pat Metheny torna meu corpo música

Pat MethenyNão há nenhuma outra música que abale tanto meu corpo quanto a do compositor e guitarrista Pat Metheny. Se a música instrumental não tem um “significado” explícito (como a literatura ou mesmo ou cinema), ela, no entanto, produz significações que vão mais além do que o meramente verbal ou lingüístico e abraça um universo muito mais vasto. Neste sentido, ultrapassa a própria poesia e as artes plásticas. E dentro desse universo musical, nada me fascina tanto quanto as criações deste que considero o maior compositor do planeta, além de melhor guitarrista. Pat Metheny não só domina “tecnicamente” a guitarra como usa cada timbre, cada solo e cada harmonia como se não houvesse outra possibilidade melhor, como se, entre tantos caminhos possíveis, ele houvesse escolhido sempre justamente o mais bonito. É de arrepiar. Costumo dizer que a música de Pat Metheny “sou eu”. Um de seus mais recentes trabalhos é “The way up”, uma composição impressionante em quatro partes, num total de uma hora de música. Além dos parceiros já tradicionais como o impressionante pianista e compositor Lyle Mays e o baixista, compositor, além de diretor dos vídeos do grupo, Steve Rodby, Pat Metheny está acompanhado de músicos tão virtuosos como versáteis, tocando vários instrumentos, que são o baterista Antonio Sánchez (não sei de que nacionalidade ele é, mas pelo nome é de língua espanhola), o trompetista coreano Cuong Vu e Gregoire Maret, que toca harmônica. Este disco ganhou um Prêmio Grammy de jazz em 2005. O que já não é novidade, pois Pat Metheny tem um total de 17 Prêmios Grammy! Informações sobre o músico e possibilidade de escutar trechos de diversas músicas estão no seu site oficial.

Publicado em 22-01-2008 na categoria Música | 2 Comentários »

Artigos da Magazine Littéraire

Magazine LittéraireA excelente revista Magazine Littéraire mantém em seu site uma seção de artigos que podem ser copiados gratuitamente. Lá encontramos textos sobre Kafka, Baudelaire, Derrida, Deleuze, Proust, Fernando Pessoa, Walter Benjamin, Nietzsche e muito mais. O endereço é www.magazine-litteraire.com/archives/archives.htm

Publicado em 22-01-2008 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Desenhos literários inéditos de Francis Picabia

Francis PicabiaForam descobertos recentemente 26 desenhos do artista plástico Francis Picabia. Trata-se de uma série que ele realizou para a revista Littérature, do surrealista André Breton, nos anos 1920. Estão expostos na Galeria 1900-2000, em Paris, mas podemos vê-los diretamente no site do jornal francês Le Monde, neste endereço.

Publicado em 22-01-2008 na categoria Artes | Faça um comentário »

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