ALGUMAS NOITES COM JOAQUIM BARBOSA (Mas não seguidas, e não toda a noite!)

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Tocou o meu celular, e eu atendi: “Alô?”. E escutei: “Oi, Renato. Aqui é o Joaquim Barbosa!”.

Isso me lembrou a história de Ronald Shakespeare, um designer que ia trabalhar na produção de um programa de televisão com o grande ator argentino Alfredo Alcón – que já tinha interpretado várias peças de William Shakespeare. Ronald telefonou para Alcón e disse: “Aqui é o Shakespeare”. Ao que o autor retrucou: “Vai plantar batatas!”.

Mas, no meu caso, era Joaquim Barbosa. “Vamos tomar um chope?”, ele perguntou. Lógico que fui. Primeiro, passei no edifício onde ele estava morando durante uma temporada em Buenos Aires, e dali fomos ao bar notable El Preferido de Palermo.

Joaquim Barbosa usava um chapéu para se proteger do frio. Mas em dias quentes e ensolarados, também usa chapéu, só que panamá. Calça jeans e jaqueta, sapato-tênis.

De cara, no táxi, saí perguntando sobre o que ele comia quando ainda morava em Minas Gerais, até os 16 anos, antes de se mudar para Brasília. “Não a chamada ‘cozinha típica mineira’, comíamos de tudo.” Também se lembra do café plantado, colhido, secado e tostado em casa. “E tinha o porco que era cortado, cozido e guardado numa lata, quando não havia geladeira.” “Igual ao interior de Santa Catarina!”, falei. “Joaquim (para o amigo que temos em comum e que o conhece há 18 anos, ele é o Joca. Mas nunca o chamei de Joca, só de Joaquim), e o pão de queijo?”, provoquei, para saber se o mito que une eternamente o mineiro a esse quitute era verdadeiro. “Adoro pão de queijo! O melhor é feito pela minha mãe. Eu até levava pra comer com os servidores do Supremo…” (Leia-se: Supremo Tribunal Federal).

Joaquim Barbosa come de tudo, mas prefere as massas, os peixes e os frutos do mar. “Não como muita carne”, disse, mas, claro, depois acabou provando as excelentes parrillas portenhas. Também gosta de vinho tinto, que foi o que pedimos: um malbec, com uma picada básica. Depois, jantamos. Ele, almôndegas com arroz; eu, rins ao Jerez com arroz. Comidinhas de boteco.

Joaquim é um aficionado por música, popular ou erudita. Conhecedor, gosta de MPB, bossa nova, sobretudo música instrumental, e jazz, ópera… Admira tanto a nossa música, que, no dia de sua posse como presidente do STF, convidou nada mais nada menos do que o grande mestre do bandolim Hamilton de Holanda para tocar.

Falamos sobre músicas e músicos, por exemplo, o maestro argentino Daniel Barenboim, que esteve recentemente em Buenos Aires (“Eu o vi em Berlim”, diz Joaquim), a pianista argentina Marta Argerich, amiga de Nélson Freire (a quem Joaquim também assistiu), a música de Minas Gerais, o Clube da Esquina, que tanto encantou Pat Metheny… Poderíamos ter ido ver Barenboim num grande evento ao ar livre, mas era meio complicado para chegar, e com certeza haveria um mundo de gente. Joaquim acabou desistindo: “É muita muvuca”. Também falamos de Rosa Passos, a fina cantora de MPB, cotada no exterior como cantora de jazz, que mora em Brasília. “Sim, ela é esposa do ministro dos Transportes, Paulo Sérgio Passos”, me conta Joaquim. Sua formação musical foi com música sertaneja, regional, depois rock e blues, depois abarcou tudo. Só o tango não o seduz, para a minha decepção, pois pensava levá-lo a alguma milonga: “Não faz muito a minha cabeça”.

Joaquim veio a Buenos Aires para umas “férias”, já aposentado do STF, uma temporada sem compromissos para relaxar de tantas tensões. Falamos dos problemas do Brasil, do racismo, da corrupção, das minorias abandonadas, como os índios, dos preconceitos de toda a espécie. Citei para ele uma frase que Bioy Casares atribui a Borges: “O Brasil é um país de macacos”.

Comentei que o que “salva” o Brasil são os artistas, os criadores, a cultura. “Mas também as pessoas, os brasileiros”, me diz, “o povo brasileiro é aberto, hospitaleiro, solidário, chama muito a atenção dos estrangeiros”. Joaquim Barbosa pôde fazer esse comentário com propriedade porque já morou em Nova York, em Paris, em Helsinki, em Los Angeles, na Inglaterra, na Áustria… E, óbvio, fala vários idiomas. “Quero aperfeiçoar o meu espanhol”, ele diz, aproveitando a estada na capital argentina.

Apesar de ter vivido a maior parte do tempo em cidades mais quentes – Paracatu, onde nasceu, Rio de Janeiro e Brasília –, ele gosta do frio, por isso veio a Buenos Aires no inverno, mas também porque curte cidades grandes. “Eu gostaria de passar uma temporada em cidades grandes onde ainda não vivi, Hong Kong, Singapura…” Ao contrário de mim, que volto para o meio do mato, Joaquim se sente bem no meio da metrópole, onde tem acesso à música, ao cinema, ao teatro, à ópera, às lojas de discos, às livrarias. “Quando eu estava para vir pra Buenos Aires”, disse”, li Facundo, do Sarmiento, e um livro de história da Argentina.” Joaquim não para de ler. Uma tarde, quando eu estava num café na Avenida Corrientes, o vejo passar caminhando com uma sacola: estava de compras pelas livrarias. Indiquei várias importantes na cidade, como a bela El Ateneo Grand Splendid, montada num antigo teatro, onde a plateia e os camarotes foram ocupados por estantes de livros, e no palco fica um café. “Já estive lá duas vezes”, me diria uns dias mais tarde. Joaquim tem tantos livros (já não tem onde guardá-los) que pensa em criar, um dia, talvez, uma pequena biblioteca pública em sua cidade natal.

Joaquim fala baixo, é meio tímido, tem o sorriso fácil. Como no bar El Preferido de Palermo os bancos são altíssimos, ele aproveitava para ficar às vezes sentado, outras vezes de pé. Na saída, me falou: “Legal esse bar, esses banquinhos são bons pra mim”. Referia-se ao incômodo quase permanente que Joaquim sofre devido à sacroileíte, uma inflamação nas articulações que causa muitas dores. Por isso, ele alterna as posições em pé ou sentado. O melhor mesmo é ficar deitado. Para enfrentar o problema, Joaquim toma alguns remédios. “Hoje, como eu ia beber, não tomei um dos comprimidos. Agora, dói.”

“Vai um café, Joaquim?”. “Não, não sou muito de café. Depois, não durmo!”.

 

Ossos da fama

Em Buenos Aires, Joaquim caminhou muito, andou de ônibus e até de metrô, sobre o qual desabafou: “Muita gente!”. Acabou sendo reconhecido várias vezes por brasileiros turistas ou residentes. Aí, teve que parar, conversar, dar autógrafos, sofrer alguma foto de celular… Mas teve suas compensações: todas as pessoas eram afáveis, respeitosas, e algumas o acompanharam em passeios pela cidade.

Joaquim está separado há dois anos e veio a Buenos Aires sozinho. “As argentinas são muito bonitas”, confessa. Aqui, ninguém é hostil a ele, como muitos o foram no Brasil, basicamente, políticos ou seus “representantes”… Num restaurante conosco, ele foi abordado por mais um brasileiro, que estava com sua esposa argentina: “Desculpe… O senhor não é o Joaquim Barbosa?”. “Sim”, ele respondeu calmamente e se levantou. O rapaz ficou perplexo e não parou de tecer elogios a Joaquim, dizendo à esposa: “Este cara é a pessoa mais importante do Brasil!”. “Que isso…”, dizia Joaquim, do alto de sua humildade.

Perguntei: “Joaquim, o que você pretende fazer a partir de agora? Voltar a dar aulas da universidade?” (ele era professor da UERJ). “Não”, respondeu, “prefiro trabalhar com assessoria, dar pareceres jurídicos, palestras…”. Mas, por enquanto, entre um compromisso e outro no Brasil, o melhor mesmo é curtir Buenos Aires. “Vou fazer musculação”, contou. “Deve ser bom para o seu problema das articulações”, sugeri. “Faz muito tempo que você não faz exercícios?”. “Há cinco anos!”, Joaquim respondeu. Em Buenos Aires, passou a caminhar bastante, conhecendo melhor a cidade. Um dia, mandei uma mensagem a ele pelo celular, e ele respondeu: “Estou malhando”. Começou a fazer academia três vezes por semana.

 

Jazz e companhia

Desta vez, fomos ao bar de jazz Thelonious, com música ao vivo. Tocava um saxofonista, cujo show – coisa raríssima em Buenos Aires, onde mesmo quem toca na rua em geral é excelente – não era grande coisa. Ficamos nos altos banquinhos do balcão bebendo um vinho e beliscando petiscos. “Vi o grande B. B. King ao vivo em Paris!”, exclama, contente. “E o Little Richard!”. Diz esse tipo de coisas com a maior naturalidade, sem um pingo de esnobismo. Joaquim não canta vantagens, ele apenas compartilha.

Sobre as possíveis origens da bossa nova, conversamos sobre Henri Salvador, que a imprensa francesa tentou passar como alguém que influenciou Tom Jobim e companhia. Mas o próprio Henri declarou: “Eles é que me influenciaram”. No entanto, Joaquim me contou que, na TV francesa, ele assistiu a uma reportagem mostrando composições de Salvador dos anos 1940 e 1950, e eram muito parecidas com a bossa nova!

Joaquim é ligado a tudo o que diz respeito a música. Quando a Analía, minha mulher, comentou sobre o filme “Eu, tu, eles”, que ela viu e gostou, Joaquim logo disse: “Com música de Gilberto Gil!”. Gosta do músico baiano Elomar, e fez chegar ao próprio sua opinião. Não deu outra: um dia recebeu de Elomar uma pilha de discos e livros.

Joaquim nunca fica até muito tarde na rua. Sempre, a uma certa hora, ele propõe: “Vamos nessa?”. Não perguntei se é por causa das dores que ele tem ou simplesmente porque está acostumado a dormir cedo, mas imagino que por causa das dores: Joaquim descia as escadas do bar bem devagar, levando os dois pés a cada degrau.

 

 

Políticas

Já que Joaquim gosta de massas – e eu adoro massas –, levei-o ao Salgado, fábrica de massas artesanais e restaurante.  Para variar, pedimos um vinho tinto. “Desde a última vez que saímos, não tomo vinho”, diz Joaquim. “Então, nós é que te levamos para o mal caminho…”, falei. Joaquim riu.

Para ele, o Brasil ainda possui uma “elite muito provinciana”. Comentamos sobre as diferenças e semelhanças entre os governos Dilma e Cristina. Ele reconhece que há avanços nos direitos do cidadão. Mas…

Ele ficou perplexo com o grau de violência inscrito na história argentina. Falamos sobre os desaparecidos pela ditadura militar argentina, um número bem maior do que os da ditadura brasileira.

Sobre as eleições, eu comentei: “Não voto há anos. Rompi a regra só uma vez: votei no Lula para presidente em 2002, e me arrependi.” Joaquim me disse: “Eu votei no Lula em 2002 e em 2006.” Confesso que fiquei perplexo. “Em 2006? Ou seja, depois que foi descoberto o mensalão?”. “Sim”, disse Joaquim. “Mas você não via nenhuma relação entre o Lula e os acusados, agora provados criminosos?”. “Não”, disse Joaquim. “Eu trabalhei pela condenação dos que estavam comprovadamente culpados. No caso do Lula, eu não tinha nenhuma prova real de que ele estivesse envolvido.” Mas tem mais: ele votou na Dilma. “Como eu disse, não tenho provas concretas de um real envolvimento da Dilma e do Lula com os corruptos condenados. Mas acho que representaram um avanço em termos sociais.” Falei que eu não achava exatamente a mesma coisa…

Mas Joaquim é um defensor da mais estrita justiça e só condena alguém – ainda que seja só verbalmente – quando tem muitas provas suficientes. Que ironia: muita gente ligada ao PT criticou Joaquim Barbosa por ele ter condenado petistas, o que viram como uma “perseguição política”. Ora, mas o próprio Joaquim votou no PT nesses anos todos… Às vésperas das últimas eleições de 2014, eu reafirmei minha decisão de anular o voto. “É”, disse Joaquim, “nestas eleições, não sei em quem votar”…

Procurado por setores ligados ao PSDB para obter seu apoio público, Joaquim Barbosa desconversou. “Mas, Joaquim”, provoquei mais uma vez, irônico, “e essa história de você como presidente da República?”, já sabendo a resposta. Ele sorriu: “Que presidente, que nada. Eles não me conhecem. Não quero fazer nenhuma carreira política.”

 

A volta

Depois de umas palestras que deu no Brasil, Joaquim voltou a Buenos Aires, cidade que adorou e que escolheu para prolongar sua estada de lazer, mas também de leituras sobre a realidade argentina. Recebi uma mensagem dele pelo celular: “Vamos tomar um chope?”. Um modo de dizer, pois sempre tomamos vinho, mas neste caso, como fazia calor, propus a ele provar umas cervejas artesanais feitas em Mendoza pelo próprio bar, o Jerome, The Beer Republic, em Palermo.  Desta vez, como era uma noite quente, Joaquim estava sem chapéu. Comentou sobre a tentativa de políticos querendo-o fazer se envolver com as eleições e com algumas retaliações que ainda vem sofrendo pela sua atuação no caso do mensalão.

Em Buenos Aires, longe da realidade política brasileira e do dia a dia no âmbito da Justiça, Joaquim relaxa. “Estou aperfeiçoando o meu espanhol com uma professora daqui”, diz, entusiasmado. “Assim, vou melhorando o idioma, conhecendo as especificidades do espanhol do Rio da Prata.”

Joaquim não fala alto, não se mostra indignado ou enfurecido com nada, apesar dos pesares. Fazendo academia, lendo, descansando, saindo, curtindo a cultura da cidade, estudando, se sente melhor, inclusive com menos dores. “Estou fazendo acupuntura”, me contou. E combinamos de sair, mas ele explicou: “Mas não pode ser na terça-feira”, disse, “porque saio de uma sessão de quase três horas de acupuntura, onde me sinto como um leitão todo espetado…”. No final, não sairíamos, mas nos encontraríamos depois de sua acupuntura para comer uma massa no apartamento que ele alugou. “Tem uma fábrica de massas ótima aqui do lado do edifício”, disse.

Cheguei às 20h30 e toquei o interfone. Observei que a fábrica de massas já estava fechada: o horário de funcionamento era até as 20h30… Joaquim me recebeu de abrigo e boné. “Xi, a fábrica de massas já fechou!… Mas vamos pedir alguma coisa por delivery.”

O apartamento é amplo e sóbrio. Num cesto ao lado do sofá, estão vários chapéus usados pelo Joaquim, que me levou à cozinha: “Vinho ou cerveja?”. “Vinho”, respondi, que tinha levado duas garrafas. Joaquim as ignorou. “Abre esse aqui.” Era um Luigi Bosca malbec. Então, Joaquim abriu seu tablet (que ele pronuncia tabléti) numa página de serviços de pedidos de comidas em vários países. Selecionou o lugar (“Já pedi desse restaurante outro dia, a comida era boa”), e pedimos um cordeiro.

Enquanto eu bebericava o vinho tinto, Joaquim só bebia água. Mas quando chegaram os pratos, ele não resistiu: “Vou tomar só uma tacinha…”. Joaquim é muito comportado com as bebidas alcoólicas e não fuma. Depois do jantar, ele se deitou num divã, que faz jogo com um grande sofá, um modo de apaziguar as dores, e assim ficamos conversando.

“Muitas pessoas me visitaram aqui em Buenos Aires”, contou, “alguns amigos, até um pessoal do PSDB pedindo apoio… Não me interessa me meter em política, quero fazer o meu trabalho de consultoria, assessoria, palestras. Vou continuar morando em Brasília”. “E aí, Joaquim? Alguma namorada?”. Joaquim conheceu algumas mulheres aqui, todas simpáticas, interessantes, que o ajudaram a ver melhor a cidade, mas parece que já estavam comprometidas, como uma recente. “Não, ela tem namorado”, me disse. “Não tenho saído muito desta vez. Faço musculação, acupuntura, espanhol, leio, escuto música…”. Todas coisas que ele há muitos anos não tinha quase tempo para fazer.

Falei que tinha uma afilhada que há pouquíssimo tempo mora em Brasília, fazendo mestrado. “Ah, dá o meu e-mail pra ela”, falou imediatamente. Joaquim está longe de ser uma estrela, e se o é, terá sido por força do cargo, não por uma ambição desmedida.  Nosso amigo em comum o define assim: “Nunca vi um cara tão culto e tão simples”.

Nunca tive muita vontade de conhecer Brasília. Mas, além da minha afilhada e de dois amigos, agora eu gostaria de visitar mais uma pessoa: o Joca.

Publicado em 02-12-2014 na categoria Gerais | 4 Comentários »

O tango e suas surpresas em Buenos Aires

Fomos a um pequeno bar, colorido e simpático, que serve pratos vegetarianos. Se chama Cúrcuma e fica no bairro Almagro. O bar está quase na esquina das ruas Sarmiento e Mario Bravo. A duas quadras dali, está o mítico Lo de Roberto (oficialmente, 12 de Octubre), um dos bares notables da cidade (ou seja, designados assim pela prefeitura por terem uma história, uma arquitetura ou uma importância cultural). Há menos de dez quadras, se encontra o Museo Casa Carlos Gardel, onde o cantor viveu com sua mãe. O espaço é simples, com cadeiras e mesas diferentes umas das outras, cozinha aberta, lustres com panos coloridos. É frequentado, sobretudo, por jovens, e tem música ao vivo. Nessa noite, se apresentariam o cantor de tango Leonardo Cusani e alguns convidados.

Lá pelas dez da noite, de uma das mesinhas perto do piano, se levantaram uma moça e um homem. Ela sentou numa cadeira e agarrou um bandoneón. Ele ficou de pé ao lado dela, as luzes foram apagadas, e alguns spots foram acesos, destacando as figuras da música e do cantor. Sem microfones, sem nenhum aparelho, começaram. Ela tocava concentrada na música e no cantor, sempre sorrindo, como se aquele ato estivesse marcado, desde sempre, por uma aura de felicidade. Ele, com ar humilde, entoava as frases musicais com uma delicadeza incisiva, que fazia as notas surgirem contundentes, mas baixas, sem necessidade de gritar para suprir a falta de aparelhos som. No bar, havia, além de nós dois (eu e minha mulher, Analía), apenas oito pessoas, das quais nenhuma, aparentemente, prestava muita atenção à música. Estariam ali para comer, beber e conversar, apenas.

 

osvaldo+moscato

Era notória a qualidade desses músicos, como costuma acontecer em Buenos Aires. Nos lugares mais inesperados, pode surgir uma dupla cantando e tocando tango (ou outro gênero musical) com um nível de dar inveja. Alguns acompanhantes desses músicos continuavam sentados à mesinha perto do piano, um senhor idoso e um homem, talvez, de uns 55 anos. Nós dois fixávamos o olhar e a atenção nas canções clássicas do tango, na atuação emotiva e precisa dos dois músicos, que nos envolviam como se estivéssemos sentados em um confortável sofá em uma casa cheia de amigos. Uma garrafa de vinho tinto ia sendo consumida dessa mesinha, da qual a bandoneonista e o cantor, às vezes, tomavam um trago.

 

 

 

 

Depois de uma hora ou menos, o cantor anunciou o fim da apresentação. As oito pessoas do bar não reclamaram nem fizeram menção de pedir bis. Pareciam pertencer a outra esfera. Para mim, era uma pena que algo tão especial terminasse tão cedo. Voltamos aos nossos quitutes vegetarianos, eu à minha cerveja, Analía à sua limonada com gengibre. Os músicos voltaram à sua mesa, juntando-se aos amigos.

Passados alguns minutos e algumas taças de vinho, o senhor idoso se levantou, a moça morena, de cabelos longos, pegou de novo o bandoneón, e sem nenhuma introdução começaram uma canção. Ao ouvir esse senhor cantar, me lembrei de quem era: o cantor do mítico Lo de Roberto, um boliche, quase uma pulpería, onde o vi sobre um pequeno estrado de 1 metro por 1 metro junto a um violonista, tudo sem amplificação, como aqui. Como sempre, afinado, com gestos expressivos, convincente, com uma voz possante, ainda que sussurrada, variável segundo a melodia e a cadência do bandoneón, um sem se sobrepor nunca ao outro. Simplesmente, uma delícia. E resgatando clássicos do tango que, às vezes, chegava a nos comover.

Cindy Harcha (foto do seu Facebook)

 

Então, o outro homem, mais jovem, foi incitado a se juntar ao grupo, pegando um violão previamente afinado pelo cantor Leonardo Cusani, e passou a tocar com a moça do bandoneón. O nível técnico do violonista era impecável, as canções que iam apresentando, de improviso, pareciam ter sido muito ensaiadas, e mais tarde os dois cantores, o idoso e Leonardo, que deve ter uns 45 ou 50 anos, se alternaram cantando. À medida que ia crescendo o seu entusiasmo, mais distantes pareciam as cinco pessoas que eu via se distraírem nas mesas (duas já tinham ido embora). Era como se os músicos estivessem se apresentando somente para mim e para a Analía.

De passagem pela minha mesa, Leonardo Cusani me diz ao ouvido (por que a mim? Porque eu era um dos únicos a prestar atenção, a admirar, a me emocionar?): “O senhor que canta é Osvaldo Peredo, que cantava no Lo de Roberto e que foi nomeado Cidadão Ilustre da Cidade de Buenos Aires. E o violonista é o Nicolás “Colacho” Brizuela, que tocou durante mais de 20 anos foi o violonista da Mercedes Sosa”. (Me lembrei do dia em que conheci no Brasil o poeta Horacio Ferrer, parceiro de Astor Piazzola e autor de “Balada para un loco”, entre tantas outras músicas, que conheci sem conhecer, pois não sabia quem era, até que, numa noite em casa, ele recitou, de pé, um de seus belos poemas.)

Assim, nos deliciamos mais ainda com esse grupo que cantava e tocava com um prazer e uma camaradagem como se estivessem em casa, no pátio, junto a uma mesa com churrasco, sifões de soda e garrafas de vinho, divertindo-se e dando o melhor de si, como sempre. Osvaldo Peredo tem 83 anos e continua cantando pelas noites. Nicolás Brizuela, o violonista que, além de Mercedes Sosa, já tocou com Fito Paez, León Gieco, Raúl Garello, Horacio Guaraní e tantos outros, além de participar do CD Tangos, do grande Rodolfo Medeiros, nominado ao Grammy latino de melhor disco de tango em 2001, tem 65 anos, mas parece ter 55… E a moça com um sorriso permanente e uma bela execução do bandoneón, descubro, com Leonardo Cusani, que “tem um sobrenome árabe, é chilena e toca tango na Argentina!”. Trata-se de Cindy Harcha (Abuhadba é o último sobrenome, mas em espanhol o primeiro é o paterno), que faz parte do grupo feminino de tango China Cruel, em plena atividade.

E o que mais? Mais nada. Em uma simples noite de quarta-feira, é como um pequeno milagre, que só a música – só os músicos como eles – podem nos dar.

 

 

 

 

 

 

Publicado em 30-10-2014 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Esboço para um filme

 

Mais de 3.000 línguas estão desaparecendo no planeta.

A minha, ainda não.

Eu falo português, português do Brasil.

A gente fala português. Não é mais o português de Portugal. Depois de 500 anos, já é outra língua.

 

Extinção.

Como se diz desaparecer em esloveno?

Procuro um ser humano que não seja digno de desaparecer. Não seria isso a imortalidade?

 

Quando se come um bicho, ele não desaparece mais.

A galinha. O terneiro. O porco.

 

Ninguém come pobres.

 

Ninguém come pumas, jaguares, raposas do Ártico.

 

Quem come o homem?

Quando se criam frangos, eles não são extintos.

Quem cria os seres humanos, que não param de se multiplicar?

Adão foi irresponsável.

Ninguém cria seres humanos dignos. Houve alguns, mas estão desaparecendo. Vivem em cavernas e se alimentam de dejetos de urubus do deserto. Adaptaram-se a um ecossistema sem água. Sem palavras.

 

A língua dos seres humanos dignos era áspera, feita de areia.

 

(Naquela época, antes de se meterem nas cavernas, alguns desses seres humanos possuíam a delicadeza de um gato roçando seu corpo em pétalas de sonho.)

 

Agora, é a vez do vento: a partida de tudo para uma era sem tempo, sem final.

Tudo se movimenta em direção a um abismo sem gatos nem galinhas.

 

Na minha língua, a despedida de tudo se chama: saudade.

 

Por exemplo, eu tenho saudade de ouvir aquela língua arenosa dos homens dignos que viviam nas cavernas, antes da inundação.

 

Tudo se inundou de nada.

 

Agora, não há mais areias, as praias foram invadidas por sargaços, restos de barcos e latas.

 

Quando eu caminhava pelas antigas praias, via carcaças de pingüins.

Quando caminho pela cidade, não enxergo mais. Meus olhos estão cegos de tanta imagem.

 

Quando eu durmo, só sonho com o escuro.

Quando tento descansar meus olhos na beira do mar, a luz azulada me fere a visão, como farpas de fogo.

 

Em português, farpa quer dizer: sonho perdido, asas quebradas, pedaço de lata enferrujada.

 

No português do Brasil, farpa que dizer: línguas mortas.

Quando eu nasci, eu sabia falar. Mas fui desaprendendo. Depois, comecei a repetir o português que era de Portugal e em 500 anos se tornou do Brasil, e agora, adulto, minha língua está pobre, podre.

 

Antes de apodrecer, o frango é comido.

As línguas apodrecem sem que ninguém as coma.

Os pobres também apodrecem.

 

Saudade não desaparece nunca.

 

Quando meus olhos falam, seu silêncio se alimenta de tudo o que se perdeu.

Como flocos de neve que derretem ao cair.

 

Um frango ou um quilo de soja nunca derretem.

 

Os campos devastados nunca desaparecem, eles crescem como bandos de baratas.

 

O que desaparece são as línguas. Por toda parte, multidões se armam de linguicidas e exterminam as pessoas de antes, as que falavam línguas demais.

 

Agora, só restam os seres humanos que falam poucas línguas, os porcos, a soja e os potes de plástico.

 

O português do Brasil sobrevive, pois é a língua da maioria. A maioria come carne de plástico, lecitina de soja, suco industrial e pele de porco frita. A maioria não tem saudade de nada.

 

A própria palavra saudade vai desaparecendo, porque ninguém a usa mais.

 

As palavras mais usadas pelos seres humanos que falam português do Brasil são: é, mais, on-line e glifossato.

 

Nunca mais vi um pingüim.

Na dieta do brasileiro, não há pingüim, então essa palavra está desaparecida.

 

Amanhã, quando eu estiver quase morrendo, vou me lembrar da palavra saudade.

Eu costumava ouvir a música do mar de olhos fechados. Ela era feita de ondas e gaivotas, trinta-réis e fragatas. Eu escutava siris.

Quando eu estiver muito cansado, vou esquecer de falar.

 

Minha língua sofre de fadiga, está enferrujando.

Não consigo mais falar pêssego, copo-de-leite, cálice, melissa

Toda promessa se esboroa em pó e vazio.

 

Eu tenho a língua áspera. Não posso mais falar.

Tenho a boca cheia de areias.

 

Hambúrguer desaparece?

 

Meu corpo está cansado de tantas sílabas em desuso.

 

Minha memória está enfraquecendo, se esvaziando.

 

Eu falo português. Português do Brasil.

 

Saudade.

 

O português não está desaparecendo, só vão se extinguir as línguas indígenas. As minorias.

Vão permanecer o inglês, o chinês, o russo e o on-line.

 

 

Estou tentando lembrar uma palavra, mas ela me foge…

Eu sabia falar, sabia. Mas fui desaprendendo, e agora só cuspo sílabas secas.

 

Eu tenho a sede de abraçar a saudade.

 

Mas ainda lembro a letra “a”…

 

Do alfabeto português, ainda restam 13 letras.

Foram importadas as letras ¥, ?, å e ?.

 

“Aaaa”…

 

Eu lembro de uma palavra:

 

adeus

Publicado em 20-05-2014 na categoria Gerais | Faça um comentário »

Desejo e escritura em “A flor do meu segredo”, filme de Pedro Almodóvar (1995)

“A flor do meu segredo”, filme de Pedro Almodóvar (1995)

la-flor-de-mi-secreto

O filme “A flor do meu segredo”, do espanhol Pedro Almodóvar (1995), provoca, como toda boa obra de arte, diversas leituras e reflexões. Uma das questões possíveis a serem tratadas (a que me diz respeito, que me toca, portanto, o que leio para mim), é o escrever, questão que vou pensar lendo também Roland Barthes.

No filme, quem escreve é Leo (a protagonista), além de Ángel, o jornalista. Leo é uma escritora que ganha dinheiro vendendo para o mercado, ou seja, escreve por encomenda, com balizas textuais determinadas pela editora.  Há uma estratégia de produção de editoras de best-sellers como essa, cujas normas são lembradas a Leo: “nada de política, ausência de consciência social, sentimentalismo, amor/histórias de amor”, de preferência, claro, com final feliz.  É uma cultura da ordem e do poder, a mesma gerada e alimentada todos os dias pelos meios de comunicação de massa: TV, revistas, jornais, livros, discos… Para Leo, essa escritura tem um excelente pagamento, uma recompensa que se traduz em férias no Caribe, dinheiro, vida “independente”, etc. Mas não a fama, pois Leo não quer aparecer ao público, ela assina com um pseudônimo. De certo modo, ela não deseja participar de todo o circo montado pela mídia como escritora de best-sellers. Leo quer manter, ao menos, esse um anonimato, preservar a identidade dessa outra Leo, não a escritora, mas que vê nessa atividade algo condenável. Esse anonimato se dá pelo uso do pseudônimo Amanda Gris. Amanda nos faz pensar em amor (amando/Amanda), mas um amor irônico, pois se trata de um mero sentimentalismo barato disseminado em seus textos. Gris, por outro lado, em espanhol, é cinza: sem destaque, sem distinção (una persona gris) (anonimato); sem brilho (día gris); (se quisermos criar mais sentidos, gris também era o uniforme da Polícia Nacional, los grises = os policiais, ou seja, a cor da ordem e da repressão). Portanto, há uma conjunção, aqui, entre escritura para o mercado, anonimato (perda de identidade), lucros, mídia e poder. Leo pratica uma escritura da esfera da mercadoria e da ordem, sem ancorar-se no que faz de alguém que escreve um escritor, ou seja: o que Roland Barthes chama de “o desejo de escrever”, que, na verdade, é uma necessidade.

Mas o conflito apresentado por Almodóvar se dá, justamente, pela crise em que Leo se encontra, num casamento que está terminando, sem chances de continuar, o que, ao mesmo tempo, estando a escritora solitária na cidade, a faz dar passo arriscado, propondo à editora um outro tipo de texto, muito diferente daqueles que a editora exige, texto esse do qual uma funcionária da editora reclamará, por conter um enredo com um negro e homossexual, mostrando o racismo e o sexismo do mercado. Há o risco de Leo perder o contrato com a editora, mas ela está disposta a não voltar atrás. Começa aí o desejo de se tornar uma verdadeira escritora, mostrar um texto que é para ela uma necessidade interior, e não um produto lucrativo.

A própria Leo admite isso: que o texto de Amanda Gris (seu pseudônimo) “é mentira, não literatura”, e que “a única qualidade de Amanda Gris é ocultar-se atrás de um pseudônimo”. Há um conflito entre a realidade e seu desejo: Leo está fora de lugar. (No filme, o diretor monta uma cena irônica, com Leo ao telefone num bar, com touca, cachecol e luvas, e na parede ao fundo a imagem de uma praia tropical…). Obscenidade (que significa “fora de cena, fora de lugar”): o amor é obsceno (ou diríamos: o desejo, como sugere Barthes em Fragmentos de um discurso amoroso). Mais que isso: o desejo de mudar, de assumir sua identidade ou mesmo o desejo per se se torna, numa cultura marcada pela mídia e pelo lucro, algo deslocado (fora do lócus, do local apropriado).

Em contraponto a Leo, temos Blanca, a empregada que também é bailarina de flamenco. Ela também tem que sobreviver, por isso trabalha com responsabilidade, mas não “vende” algo com o falso rótulo de “arte” para sobreviver, inclusive resiste à proposta de seu filho de apresentar-se como bailarina, pois considera que não está mais preparada.

Por fim, a vida da escritora Leo atinge o ápice da crise: é o fim de seu relacionamento amoroso com Paco, que é um militar trabalhando no exterior. Podemos pensar em outra ironia de Almodóvar, associar o aspecto policial/militar da vida de Leo com a esfera da cultura, ou seja, mostrar a incompatibilidade entre essas duas ordens. Há também (sem que isso deva ter uma relação causal) uma crise de identidade da escritora. Ela passa a escrever literatura “negra, em vez de “cor-de-rosa”. É esse texto pelo avesso, escuro, que ela entrega à editora, e por isso Leo é repreendida. A música “A flor do meu segredo”, que dá nome ao filme, é do cubano Bola de Nieve e fala em “dolor y vida” (dor e vida). Longe, portanto, do clima “água-com-açúcar” exigido pela editora. Ao jornalista Ángel, de quem se aproxima para tentar publicar algo no jornal El País, Leo afirma: “Só quero ser clara e sincera”. O que seria impossível se continuasse escrevendo literatura para  mercado. No jornal El País, escreve contra Amanda Gris. A seu marido (o militar), confessa que está feliz por escrever algo “de que gosta”. Nesse momento, a imagem no filme parece um confessionário, no qual Leo fala ao militar: de novo, uma ironia de Almodóvar, juntando à esfera de poder já desenhada com a mídia e o poder, inclusive militar, a esfera da Igreja, fortíssima e tradicional na Espanha de Franco, o fascista que ficou muitos anos no poder, desde a frustrada Guerra Civil Espanhola. Ora, como lembra Roland Barthes em Aula, “fascismo é obrigar a dizer”. Ao jornalista Ángel, Leo diz que “quer escrever sobre literatura” e “só do que gosta” e, portanto, não ser mais obrigada a escrever o que a editora lhe exige. Ao mesmo tempo, ela demonstra admiração por escritores que não se entregaram ao mercado acriticamente, como Julio Cortázar, Virginia Woolf, Djuna Barnes…

Há aí dois passos perigosos: Leo decide escrever no jornal, mas também com um pseudônimo (tem medo de se revelar), e escreve um romance diferente para a editora (“negro” em vez de “cor-de-rosa”), que causa o conflito com o mercado. Há três enfrentamentos: com a editora (rompimento do contrato, possível processo contra ela); com o jornal (quando ela diz que seu ato “é um atrevimento”, que ela quer “escrever sobre literatura”, toca uma sirene na gráfica do El País (alarme! Não é qualquer coisa que pode ser dita na imprensa…); com o marido (a palavra paco significa policial), militar, ou seja, de novo a ordem, o dever…

Boa parte de imprensa, como toda indústria cultural, vive da mercadoria, do texto como mercadoria. No filme, vemos uma imagem da enorme propaganda de Amanda Gris na FNAC, um outdoor expondo-a como um produto. Ángel (o jornalista), dentro da gráfica do jornal, afirma, entre as máquinas: “Se isto não funciona, El País não funciona”. Mas também podemos entender (sem as legendas): “Se isto não funciona, o país — a Espanha — não funciona” (o poder se apóia na imprensa, e vice-versa).

Ángel, como bom mercador, passa a escrever romances imitando Amanda Gris, que envia à editora como se tivessem sido escritos por Leo. Salva, assim, Leo (em quem está interessado), dá matéria para seu próprio jornal (ele mesmo escreve artigos a favor de Amanda Gris — mas com pseudônimo…) e, ainda por cima, ganha dinheiro (porcentagem de Amanda Gris). Pois, ao contrário de Leo, ele adora “literatura cor-de-rosa”. Circuito: imprensa, editoras, escritores por encomenda. Anjo (ángel) que ajuda Leo, mas não tem nada de angelical…

Outra ironia de Almodóvar: com todas essas histórias escritas para vender, a coleção da editora se chama “Amor verdadeiro”…

Resultado: Leo está “louca” (diz a editora). E ela responde: “talvez” (ela grifou uma expressão num livro de Djuna Barnes que diz: “o assédio da loucura”). Leo se recusa a escrever para o mercado, quer escrever segundo seu próprio desejo: para o mercado, é uma loucura. Como escreve Barthes no Fragmentos de um discurso amoroso: “É louco aquele que é depurado de todo poder”; “é não poder evitar ser um sujeito [no amor, no desejo] que me torna louco”. Não é me anular em um outro (o marido, a editora…): “eu sou louco porque eu consisto [não porque me despersonalizo no outro]”.

Uma das questões apresentadas por Almodóvar em “A flor do meu segredo” pode ser: é possível, nessa civilização da cultura como mercadoria, das subjetividades tecidas pela indústria cultural e pelas noções de Ordem, Lei, Pai, etc., o amor? É possível manter uma identidade (a verdadeira Leo, e não Amanda Gris)? É possível uma escritura (uma arte) livre?

Publicado em 30-04-2014 na categoria Gerais | Faça um comentário »

TAPAS (26/4/2014)

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Foto: Analía E. Barrera

Tenho admiração profunda, infinita, pelos músicos instrumentistas: eles não falam absolutamente nada – e sempre têm toda a razão.

*

A natureza nunca é brega.

*

Escrever é mandar a solidão à merda.

*

Contradição: exatamente por achar a vida um tédio é que tento me agarrar aos seus mínimos prazeres – e vivo. Os que se acomodam à vida – à sua mediocridade sem prazeres, sem riscos – são levados, arrastados pela vida. (Vantagem do arrastado: ele vai se afogando, mas nada para ele é incômodo).

*

Com Barthes, procuro ser um escritor atópico: sem lugar, sem pátria, sem “literatura”. Utopia do atópico: ser localizado por alguém.

*

O preto é a cor que está na moda há tempos. Para uma civilização moribunda, nada mais adequado.

*

A democracia é a continuação da ditadura por outros meios.

Publicado em 27-04-2014 na categoria Gerais | Faça um comentário »

TARKOVSKI E UMA LITERATURA FORA DE CENA

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O diretor russo Andrei Tarkovski

Para o cineasta russo Andrei Tarkovski, em seu livro Esculpir o tempo, há uma diferença fundamental entre o cinema e a literatura: o primeiro trabalha “diretamente” com a vida, criando através de imagens reais vivenciadas pelo espectador. Por isso, para ele, o cinema não é um “sistema de signos”, pois a imagem não “representa” nem “simboliza” nada. É sua própria presença na tela, com um ritmo de tempo, o que causa uma impressão em nós.

No caso da literatura, a palavra já é um signo: refere-se a algo. Para Tarkovski, a imagem da cadeira é muito mais forte do que a palavra “cadeira”. Ele busca não a intelectualidade da alusão, mas a emotividade da presença.

Por outro lado, Tarkovski não busca o enredo, a descrição, mas uma atmosfera feita pela concentração de meios expressivos – não pela simbologia ou por referências culturais explícitas. O artista não deve desenvolver uma idéia explicada ao espectador, mas criar uma matéria viva, a da imagem cinematográfica. O problema para a literatura é que não há como mostrar essa “imagem” diretamente, a não ser através da palavra. Como trabalhar naquela “emotividade da presença”, se a linguagem literária é alusiva, se refere a algo fora dela?

Pista de Tarkovski: o hai-kai (tipo de poesia japonesa) é uma “observação em estado puro”, sem alusões, sem símbolos além do essencial que é visto/sentido pelo poeta. Daí sua semelhança com a pintura. Tarkovski não quer empurrar para o espectador uma idéia, um caminho, mas apresentar uma situação, uma imagem capaz de provocar sua sensibilidade. Para ele, o cinema só pode ser poético. Isso não significa que a literatura deva ser “espontânea”. Pelo contrário: para chegar a essa “simplicidade”, a essa “pureza”, o autor deve percorrer um caminho árduo, que é o de sua própria fidelidade, sua própria descoberta, sem render-se ao comércio ou às ideologias da moda. Se o autor for fiel a si mesmo, encontrará um público que, ainda que seja pequeno, compreenderá sua obra e partilhará suas reflexões.

Isto me faz pensar na questão da subjetividade no texto. Já se tentou expulsá-la (os poetas concretistas, por exemplo). Mas encarar a subjetividade não é entregar-se a uma “espontaneidade” qualquer, e sim dar importância à criação artística que não passa somente pela racionalidade, e que pode ser um caminho valioso para a “fidelidade” e a “autenticidade” buscadas por Tarkovski.

Se a literatura é uma instituição que cobra dos autores uma coerência, um sentido e, sobretudo, uma consciência do que está propondo em cada texto, se exige dos autores muitas vezes uma “explicação” da obra e uma engenharia do texto dominada racionalmente, então, voltando a Tarkovski, trata-se de abandonar a literatura.

Se a indústria cinematográfica calcada no lucro exige uma história, um enredo, uma coerência explicável pelos críticos, uma produção que seduza o espectador, Tarkovski reivindica para o cinema o trabalho com a subjetividade, com suas imagens da infância, suas marcas pessoais, sua recusa em utilizar “símbolos” a serem “decifrados” pelo espectador. Em meio à massificação e à homogeneização produzidas pela mídia, o cineasta russo procura uma singularidade capaz de entregar ao espectador o fruto de uma busca pessoal, mas que compartilha com seu público as mesmas preocupações sobre a condição humana no mundo atual.

Ser escritor, nesse sentido tarkovskiano, passa, então, pela busca de uma linguagem que fuja às determinações da crítica, da moda, da mídia e dos discursos hegemônicos. Trata-se de uma linguagem singular, não porque se pretenda “original” ou “nova”, mas sim porque não se adapta aos esquemas do que é considerado “literatura”. Um texto assim não pode ser enviado a nenhum concurso literário que insiste na divisão em gêneros: “poesia”, “conto”, “romance”, etc. Um texto assim não fala o que se quer ouvir de novo, mas fala o silêncio que está abafado pelo acúmulo de ruídos lançados diariamente no mundo.

Essa busca pela singularidade pretende o afastamento do comum pela margem, fora da literatura, fora da “vanguarda”, assim como o cinema de Tarkovski foge da indústria cinematográfica. Neste sentido, uma literatura “tarkovskiana” teria que se afirmar como fora da tradição, fora da intertextualidade, ou melhor: o escritor já não se definiria pelo lugar na instituição (na Literatura), mas por sua obscenidade.

Publicado em 18-04-2014 na categoria Gerais | 1 Comentário »

“GATOS”: 3 TEXTOS DO MEU LIVRO INÉDITO “GATOS: PEQUENO DICIONÁRIO POÉTICO” (www.renatotapado.com)

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ALMOFADAS DAS PATAS
Caminhar, para o gato, é um exercício de silêncio. Suas patas são dotadas de almofadas, que dissimulam a preparação do salto sobre a presa, os passos noturnos no telhado, a cata de alimento sobre a mesa. Servem de apoio para o ataque, quando das patas se estiram as garras prontas para o desenlace. Também são elas que delatam a presença do felino, gravadas no barro, à beira de um regato. E as almofadas também criam laços. É quando o gato apóia as patas levemente no rosto da dona, com o olhar enternecido, deixando ali as marcas invisíveis da carícia.

BANHO
Não há nada mais irracional no universo felino do que um banho. Após as ásperas lambidas higiênicas, a cata da minúscula impureza, a saliva asséptica lustrando o longo pêlo, a chegada da água é um despropósito. É curta a paciência felina na hora incômoda do banho. O dono o atrai, sorrateiro, para o piso do box onde, às vezes, o gato busca água fresca para beber. Então, a armadilha começa a se mover: o ruído do chuveiro marca o momento sem retorno, e já a agressão suave da água morna sobre o pêlo imaculado delata a traição do ser humano. O gato, exasperado, mia, mia longamente, melancólico e irado, contra aquele ataque macio, inescapável, que mãos cúmplices, humanas, ajudam a cometer. Depois dessa tortura sedosa, o gato, desnorteado, encontra a aspereza clara da toalha, enxuta como o paraíso, acariciando a seda brilhante do seu pêlo. O dono, então, lhe dirige as mais afetuosas palavras. Em vão. O gato o ignora e, urgentemente, começa, com a língua rosada, a sua secagem salvadora, até que esteja completamente limpo dessa substância úmida e estranha sobre o corpo. Foi traumático. Mas agora, paparicado e impecável, mia. E sua voz denuncia uma felicidade felina.

CARINHO
É inverno. Chove fininho. O mundo está cinza e denso, opaco ao brilho inquiridor dos olhos felinos. Não há nenhum movimento perceptível, a não ser o das folhas das árvores, que, a cada gota que recebem em sua textura, se movem suavemente. Numa hora dessas, não passa nenhum inseto, e os pássaros se recolhem. O gato, sem distração, mas também sem sono, observa apático o desenrolar demorado das horas, esticado num pequeno cesto. Perto dali, o dono lê um livro, sentado numa poltrona. Nenhum ruído dentro de casa, apenas o da chuva lá fora. O tempo, às vezes invisível e esquecido, vai se tornando, nesse dia, pesado e úmido. O dono fecha o livro, entediado. O pequeno felino se espreguiça e, aborrecido, suspira. Ergue o corpo como quem toma uma decisão, mas não sai do lugar. Pisca. O dono se aproxima, senta no chão e estende a mão. O gato avança, pisa fora do cesto e abaixa a cabeça. Então, acontece o toque. O felino se estira no chão, o dono também. E ambos ruminam a possibilidade de outra vida.

Publicado em 16-04-2014 na categoria Gerais | 1 Comentário »

Meu livro sobre Chico Buarque impedido de ser publicado

Não, não se trata de uma biografa de Chico Buarque, e aproveito para dizer que sou contra qualquer proibição de publicar biografias. Depois, se for o caso, o biografado que conteste o livro. Acontece que, como disse Luiz Schwarcz, dono da Companhia das Letras, “a atual lei brasileira permite que se instaure um balcão de negócios, arbitrariedades e malversações” (Jornal O Globo, 17/10/2013).

Há algo pior, que é uma espécie de censura econômica e, além disso, censura da ignorância.

Depois de dar um curso sobre 24 canções de Chico Buarque em Buenos Aires, juntei as anotações que eu tinha feito e comecei a revisitar as composições e a escrever sobre elas, aumentando o seu número e analisando não somente as letras, mas igualmente alguns aspectos da relação entre letra e música, o que, propriamente, configura uma “canção”, no proprio dizer de Chico Buarque, que nunca fez uma música desvinculada de uma letra.

Assim, finalizei meu livro, que se intitula Chico Buarque: 30 canções (1965-2011), no qual estudo canções das primeiras gravações, até o último disco, numa seleção pessoal. Com um tema como este, e levando em conta que no ano que vem, 2014, Chico completará 70 anos, pensei na possibilidade de publicação do livro e o enviei para mais de 100 editoras do Brasil e de Portugal.

2012-11-06-153050Enquanto não consigo publicar meu Chico Buarque, toco canções dele.

(Foto: Analía. E. Barrera)

A primeira surpresa foi verificar que as grandes editoras estão praticamente fechadas para receber originais. Umas afirmam não ter estrutura para ler novos livros inéditos, outras dizem que este tema “não interessa” (sic!). Há, inclusive, editoras arrogantes que declaram não receber originais, pois têm uma equipe de “consultores” que sugerem livros a serem publicados. Consultores, onde? Quem são? Como um desses consultores sabe o que está sendo escrito no País? Fazem uma pesquinsa exaustiva? Têm conhecimento? Não. Eu posso aceitar que uma grande ou média editora leia o meu livro e não o aprove, considerando-o mal escrito, o que for. Mas não admito que uma editora, de antemão, recuse algo que não conhece, em sua postura petulante.

Outra surpresa: na minha ingenuidade, não sabia que, para a publicação das letras das músicas, deveria pagar direitos autorais. É claro que eu sei que existem os direitos autorais – eu mesmo sou autor com 6 livros publicados – , mas as letras que eu reproduzo em meu livro estão todas disponíveis gratuitamente na internet em dezenas de páginas. Surpresa pior: somando tudo o que cobram as editoras detentoras u administradoras dos direitos das letras, dá um total de cerca de R$ 7.000. Isso mesmo, não me enganei na digitação: sete mil reais.

Algumas poucas editoras do Rio e de São Paulo se interessaram – obviamente – pelo meu livro. É um tema importante, sobre um autor consagrado, e é difícil encontrar no Brasil algum livro que tenha analisado, na íntegra, 30 letras de Chico Buarque, relacionando-as, além disso, com aspectos musicais. Um dos únicos é a obra Desenho mágico, de Adélia Bezerra de Meneses, mas este é um lilvro temático, não por canção, e foi publicado em 1982, sendo o último disco do Chico Buarque analisado de 1980.

Mas como uma pequena editora poderia pagar os cerca de R$ 7 mil de direitos autorais, se ela propõe a edição por demanda, de 100 em 100 ou de 200 em 200 exemplares? O custo dos direitos autorais supera em muito o custo da própria edição!

Assim, meu livro fica impedido de ser publicado. Um material que levou mais de um ano de trabalho, único, que seria útil para muitos leitores pelo Brasil afora, está guardado na gaveta. Posso disponibilizá-lo no meu site, mas sem as letras. Cada vez que faço referência a um fragmento de canção, o leitor teria que buscar a letra na internet… Não é uma forma de leitura muito prática. Depois, prefiro ler um livro físico, não virtual.

As editoras pequenas ficam sem um material interessante para serem mais divulgadas realizando um trabalho cultural. E o próprio Chico Buarque perde de ter uma análise diferente de suas canções.

Ao pedir autorizações aos parceiros de Chico, recebi uma resposta afirmativa de Roberto Menescal, co-autor de “Bye, bye, Brasil”. Em sua resposta, Menescal me escreveu: “Renato, li todo o trabalho que você fez com ‘Bye, bye, Brasil’ e fiquei muito impressionado com seu detalhamento em cada momento da letra. Só assim eu pude entender mais profundamente essa nossa composição. Gostei imensamente!!!”

Mas as editoras não querem ler.

Isto é o retrato do mercado de cultura atual no Brasil.

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Publicado em 17-10-2013 na categoria Gerais | 3 Comentários »

Diário do fim de tudo (14/10/2013)

O ato mais indigno, para mim, é adequar-se ao mundo.

*

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Foto: Analía E. Barrera

Mesquinho é um adjetivo que jamais poderá ser atribuído a um animal.

*

Ninguém corrompe ninguém. A corrupção humana é congênita.

*

Uma escritura radical só pode nascer da solidão. É impossível pensar em bando.

*

Um bar é o oásis do solitário.

*

Um texto é a precipitação – quimicamente falando – da fricção do corpo com o tempo.

Leia mais em www.renatotapado.com

Publicado em 14-10-2013 na categoria Gerais | 5 Comentários »

3 POEMAS ERÓTICOS + TRÊS SONETOS (publicados na Revista Coyote número 23)

3 POEMAS ERÓTICOS

I

Há algo misterioso nos teus seios,

e busco em vão escrarecer seus halos.

Apelo às minhas mãos, não tenho meios

de descobrir o enigma sem tocá-los.

Disposto a encontrar algo que sele

minha curiosidade insaciável,

pesquiso a seda rósea da tua pele

com minha língua e sua palavra afável.

É madrugada. Mudo o meu caminho

e percorro o teu corpo como um pássaro

buscando a fome cálida no ninho.

Pergunto ao corpo, mas estás dormindo.

E mesmo assim minha sede é satisfeita

com essa resposta que me dás sorrindo.

(Soneto finalista do Concurso Nacional de Sonetos em homenagem a Vinicius de Moraes do Canal Futura e da Fundação Roberto Marinho, 2003).


II

Abri meus olhos: tudo se aqueceu

com a polpa clara, a pele doce seda.

Que minha saliva atrás do gineceu,

em recomeço eterno, me conceda

essa picante espera: ela promete

depor meu tédio diante da abertura

sem fundo, sem cancela, que submete

meu sonho à sua sensual brancura.

Minha boca se aproxima. Ela já sabe

o abismo suculento dessa esfera

na foz de uma nascente que a circunda.

Mato minha sede. Meu desejo cabe

inteiro onde só essa entrega impera:

alvo redondo que meu suco inunda.

III

Teus olhos me tocaram. Quase um susto,

estremecendo em mim esse sorriso.

Foi a primeira vez. Eu vi teu busto,

a face doce, o desenho preciso

compondo em tipo raro o meu espanto.

Disfarço o meu abalo, invento gestos,

mas volto a te encontrar. E te olho tanto -

corpo tão novo – que imagino incestos.

Viras de costas. Meu pudor se atreve

a esquadrinhar a tua envergadura:

curvas de seda, pétalas de neve.

Tudo provoca a minha libido acesa.

E sonho com tua cálida brancura

roçando em minha descrença tua certeza.

TRÊS SONETOS (Publicados na Revista Coyote número 23, primavera de 2011)

I

Escrevo a noite, sua lunar brancura

a iluminar as margens dos instantes,

a noite clara, sem depois nem antes,

que se desdobra, amante, na escritura.

Pressinto o gume dessa negra artéria

a alimentar o sonho da vigília,

seiva que salva o dia da armadilha

de perecer sem alma e sem matéria.

Escrevo o avesso do clareado dia -

com o vício de suas falas sem sabor -

numa impaciência que o papel adia.

Escrevo o escuro que o verso vislumbra:

o gesto urgente e puro de uma flor

colhendo sua existência na penumbra.

II

Escuto esse piano e me entristeço

como a chuva que cai neste domingo.

Escuto, e vibra em mim o que não esqueço:

uma dor que me abraça, e eu não me vingo.

O som da chuva, estranha melodia,

sem um compasso, só silêncio e espera,

dilui nas horas minha melancolia

como o andar furtivo da pantera.

Escuto esse piano e então escrevo

na página fugaz, com alguma pressa,

algo que não tem nome nem relevo:

apenas essa dor que me distrai

como águas caindo rumo ao mar -

chuva que sempre chega, nunca sai.

III

Tudo o que ofereço é esta grafia

inscrita neste corpo em celulose.

E a acolhes em tua língua essa dose

que bem sabe, mas o seu fim se adia.

Saber e dor dentro da clara falta

é o que te entrego na brancura lisa,

a superfície de uma pele-pauta

e melodia, como ave e brisa.

Disponho traços negros no papel -

são grãos sutis dessa necessidade

que te entrego, nutrindo nossas falas.

Então, disperso sílabas no céu,

e nelas saboreias a verdade

incômoda, que sabes e que calas.

Publicado em 07-10-2013 na categoria Gerais | Faça um comentário »

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